Prestes a perder uma parte da estrutura sob seu comando, o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse ontem que a reforma ministerial foi um movimento político necessário para viabilizar o avanço da agenda de reformas. É uma prática “legítima”, que preservou o “coração político” da economia, assim como os programas de apoio ao mercado de trabalho em elaboração. “Segue o mesmo jogo, não muda nada”, afirmou. A geração de empregos deverá até ser acelerada, com os novos instrumentos que estão em elaboração.

O que era o antigo Ministério do Trabalho, hoje integrante da estrutura do Ministério da Economia, será desmembrado para acomodar o ministro Onyx Lorenzoni e o senador Ciro Nogueira (PP-PI) no Planalto. Guedes ressaltou que Onyx é “como se fosse da equipe econômica”, um liberal que apoia teses como a capitalização da Previdência, a Carteira Digital Verde-Amarela, o Renda Cidadã e a desoneração da folha.

Uma das formas de garantir a continuidade das políticas da área do Trabalho seria colocar no posto número dois da futura pasta do Trabalho o atual secretário especial de Previdência e Trabalho, Bruno Bianco. Isso, porém, não está certo.

O secretário, mestre em direito e procurador de carreira, passou a ser cotado também para ocupar a Advocacia-Geral da União (AGU). Outros integrantes da equipe de Bianco são considerados para ocupar a secretaria-executiva de Onyx.

“O que é importante é o seguinte: as práticas são republicanas? Está acontecendo na transparência, à luz do dia? Não tem nenhum quiproquó. Nós precisamos de interlocução política lá no Senado. Tem parceiros que apoiam o governo, a centro-direita”, disse Guedes.

Ele disse que o presidente Jair Bolsonaro, “no estilo dele”, apoiou o programa econômico nas horas decisivas. “Quando chega uma hora dessas, de conseguir trazer um aliado importante do ponto de vista político para ele, eu devia recusar?”, questionou.

O desmembramento do Ministério da Economia vai na direção contrária do que o ministro considera uma tendência para um eventual segundo mandato de Bolsonaro: a concentração de pastas, uma vez que a política é “Mais Brasil, menos Brasília”. No futuro, poderiam existir grandes ministérios para políticas sociais e para investimentos, exemplificou. “Agora: a curto prazo, precisa fazer acomodações políticas”, admitiu.

Guedes pediu uma leitura mais construtiva e sofisticada dos fatos, ao ser questionado se a reforma não representaria a captura do governo pelo Centrão. “Você diria que o PT foi refém do PMDB, ou que o Fernando Henrique foi reeleito porque foi capturado por alguém? Ou será que a democracia exige a sustentação parlamentar?”

Ele lembrou que o governo por vezes é criticado por não ter interlocução política, estar isolado e só ter general no Planalto. “Aí, quando o governo põe um político lá, foi capturado.”

Os programas Bônus de Inclusão Produtiva (BIP) e Bônus de Incentivo à Qualificação Profissional (BIQ), em elaboração pelo governo, serão anunciados em breve, disse. Além disso, Onyx tem uma ideia nova e “bacana” para acelerar a geração de empregos, disse Guedes, sem dar detalhes. O Valor apurou que se trata de um serviço civil, que ofereceria vagas remuneradas a jovens. A ideia ainda está em construção.

 

Fonte: Valor Econômico -Política, por Lu Aiko Otta, Mariana Ribeiro e Edna Simão — De Brasília, 23/07/2021