O manual de "Condutas Vedadas" aos agentes públicos federais em eleições, elaborado pela Advocacia Geral da União (AGU), quase impediu que o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Fábio Kanczuk, apresentasse a sua conclusão de que a economia viveu, em junho, uma clara recuperação - o famoso "V", no linguajar dos economistas - após o mergulho dado em maio.
O que poderia ajudar o público a entender melhor a atual realidade econômica do país quase foi vedado devido à preocupação de que isso poderia ser interpretado como campanha eleitoral feita pelo atual governo, em benefício sabe-se lá de quem.
Mesmo sob risco de ferir alguma norma do manual, Kanczuk concluiu sua análise. O ponto destacado por ele é que a recuperação pós-greve dos caminhoneiros está ocorrendo acima das expectativas e, dependendo do trabalho fiscal do governo nos próximos meses e da redução das incertezas políticas, pode-se ter números para a economia melhores para este ano e para 2019.
"Os dados de junho, já divulgados, mostram um retorno dos dados de maio, como um ′V′", disse o secretário.
Ele citou o aumento da demanda por papel e papelão, a elevação do consumo de energia elétrica e a maior produção de automóveis. "Os números mostram uma recuperação completa do que aconteceu em maio", afirmou Kanczuk. O secretário começou confirmando a redução, antecipada pelo Valor, da estimativa do governo para o crescimento da economia neste ano, de 2,5% para 1,6%. E o mais importante: confirmou também a redução da estimativa de crescimento para 2019, de 3,3% para 2,5%.
Ele explicou que do 0,9 ponto percentual de redução da estimativa do crescimento para este ano, apenas 0,2 ponto percentual pode ser atribuído à greve dos caminhoneiros, que afetou duramente o país durante vários dias. O 0,7 ponto percentual restante resultou de um choque de demanda provocado por aperto das condições financeiras, de acordo com o secretário.
Kanczuk observou que os juros de longo prazo, de cinco anos, subiram, e que o CDS (Credit Default Swap), que mede o a percepção de risco de um país, aumentou, o que teve efeito sobre todos os ativos financeiros de médio e longo prazo. "Isso teve um impacto importante sobre a atividade (no Brasil) e explica o 0,7 ponto percentual de queda da projeção de crescimento para este ano e a queda projetada para 2019 também", explicou.
Uma das razões para o aperto das condições financeiras é mais de fundo, pois decorreu da política monetária praticada pelo FED (o banco central americano), que valorizou o dólar frente às demais moedas do mundo. A valorização do dólar terminou diminuindo a liquidez internacional, pois levou os recursos de volta para os Estados Unidos, interferindo nos juros longos de todos os países, de acordo com a análise do secretário. "Esta questão externa explica metade da queda de 0,7", afirmou Kanczuk.
Outra razão está relacionada ao aumento das incertezas no Brasil, "ligadas a questões eleitorais e fiscais, que, por sua vez, estão relacionadas a questões eleitorais", explicou. Esse quadro contribuiu para a redução da expectativa de crescimento, não apenas do governo, mas também do mercado.
"Houve, de fato, uma perda", admitiu o secretário. "Mas estamos notando, na margem, e os dados de junho dessazonalizados mostram isso, que a retomada está melhor do que as expectativas", afirmou.
"A sensação que se tem é que fazendo um trabalho fiscal, reduzindo a incerteza, se pode ter números melhores para este ano e para o ano que vem", concluiu.
A análise poderia ter sido mais rica e detalhada, mas, talvez por precaução, o secretário preferiu não se alongar.
Culpa do manual.
Fonte: Valor - Macroeconomia, por Ribamar Oliveira, 23/07/2018

