Duas incorporadoras do segmento econômico, MRV e Direcional realizaram neste mês ofertas subsequentes de ações (“follow-on”).
A MRV encerrou na terça-feira (18) a sua oferta, que resultou em R$ 1 bilhão captado, com ações precificadas a R$ 12,80. No início do mês, a Direcional havia captado R$ 428,8 milhões, com ações a R$ 18,25.
Ygor Altero, analista de mercado imobiliário da XP, afirma que o setor passa por um “mini bull market”, causado principalmente pela expectativa de queda na taxa de juros, mas também pelos novos parâmetros do programa federal Minha Casa, Minha Vida, que devem ampliar o mercado de habitação de baixa renda, e pela redução do custo da construção, após dois anos de aumento.
“As empresas já estavam indo bem, mas agora ficou melhor ainda”, diz. “O que temos visto é um mercado super animado com o segmento de baixa renda, a demanda está grande.”
Na MRV, o destino do recurso obtido com a oferta subsequente vai integralmente para a desalavancagem da companhia, segundo o copresidente Rafael Menin.
No material utilizado para informar o mercado sobre a oferta, a companhia lista que a relação entre dívida líquida e patrimônio líquido passaria de 65,2% no primeiro trimestre desde ano para 39,7% após o follow-on, caso o lote adicional de ações, chamado “hot issue”, também fosse vendido — o que aconteceu.
“Com a operação, a redução de despesa financeira é da ordem de R$ 150 milhões por ano”, afirma Menin.
O executivo também reforça que o R$ 1 bilhão será usado apenas na incorporação nacional econômica da MRV. As subsidiárias Resia, que atua nos Estados Unidos, Luggo, de imóveis para locação, Urba, de loteamentos, e Senzia, que atua fora do MCMV, não receberão partes do capital.
O objetivo da companhia é voltar a operar com um ritmo de 40 mil unidades por ano, patamar que não conseguiu alcançar no ano passado, quando foram aproximadamente 33,7 mil unidades.
Altero afirma que a alavancagem era “o grande problema” da companhia, que já vinha melhorando seus resultados operacionais e a dinâmica de vendas nos últimos trimestres, com margem bruta mais saudável. Com a continuação desses esforços e com o R$ 1 bilhão em caixa para reduzir as despesas financeiras, é esperado um “alívio” no lucro líquido da incorporadora. No primeiro trimestre, a MRV apresentou lucro líquido de R$ 30,6 milhões, queda de 57% sobre o ano anterior.
Para Menin, a oferta possibilita que a companhia encurte o prazo de solução desses problemas.
A Direcional não tinha o mesmo problema de alavancagem da MRV — sua relação de dívida líquida sobre patrimônio líquido foi de 19,2% no primeiro trimestre. Segundo o diretor-financeiro Henrique Paim, o follow-on foi uma forma de conseguir estrutura de capital para bancar o crescimento da empresa.
O novo teto de preço para as unidades do MCMV, que passou de no máximo R$ 264 mil, e apenas no Rio, em Brasília e em São Paulo, para R$ 350 mil no país todo, mudou o tipo de cliente que pode ser atingido, explica. Inclusive boa parte dos produtos da Riva, a marca da Direcional para média-renda, poderá ficar dentro do programa.
Ainda segundo Paim, a empresa vê um mercado com pouca oferta de produtos e quer crescer para ocupar esse espaço, mas sem aumentar sua alavancagem.
“Um dos elementos imprescindíveis para a sustentabilidade do negócio é manter níveis de alavancagem financeira adequados”, afirma.
Assim como a MRV, a Direcional também teve demanda superior à oferta de ações. Paim conta que a companhia foi surpreendida pelo interesse de investidores estrangeiros. “Estão olhando de volta para o Brasil, com o cenário de juros potencialmente caindo”, diz.
O diretor financeiro analisa que a janela para ofertas subsequentes no setor continua aberta. Possíveis novas ofertas, no entanto, precisam ocorrer logo. “Não me parece que vai ser uma janela eterna e um bolso infinito”, diz.
Altero afirma ser possível que a janela seja positiva também para incorporadoras de médio e alto padrão, que se beneficiam da possível queda dos juros, mas que, no momento, a demanda está mais concentrada no segmento econômico.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Ana Luiza Tieghi, Valor — São Paulo, 19/07/2023

