
A temporada de compras de fim de ano, que começa na Black Friday e vai até o Natal, deve render mais negócios para os setores de bens de consumo. Com a vacinação contra a covid-19 acelerando e alcançando os grupos mais jovens, a expectativa é de aumento de vendas. Mas a pressão sobre os custos de produção segue forte, a inflação de itens básicos toma uma fatia maior do bolso do consumidor, cuja renda vem caindo, e o desemprego segue alto - por isso há certa cautela nas projeções de faturamento.
A economista Isabela Tavares, da consultoria Tendências, diz que a renda disponível está baixa e deve terminar o ano em níveis bem reduzidos. O desemprego bateu em 14,7% em março, um recorde. Ela pondera, no entanto, que a expectativa é que a partir do quarto trimestre as pressões passem a sinalizar um recuo, tanto na inflação ao consumidor quanto no índice de preços à indústria, conforme a oferta de insumos se normalize.
A retomada gradual das atividades também deve começar a melhorar os números do mercado de trabalho formal e informal, podendo incentivar mais concessões de crédito e fazer com que o consumidor fique um pouco mais confiante.
“Pensando em fim de ano, esperamos um ano melhor do que 2020. Embora a redução do auxílio limite o consumo das classes mais baixas, a poupança das famílias mostrou um crescimento elevado e isso pode impulsionar o consumo nas classes média e alta”, diz a economista.
Essa divisão do país em dois “Brasis” - um pobre e outro rico - tende a ficar ainda mais evidente. No momento mais crítico da pandemia, as classes média e alta conseguiram economizar ao reduzir gastos com restaurantes, viagens, e mesmo com alguns itens de consumo que estão mais atrelados à vida social, como é o caso da moda e de algumas categorias do setor de beleza. Por isso, a aposta é, especialmente para estas classes, de que essa demanda reprimida lidere o consumo das famílias.
João Carlos Basílio, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Beleza, Higiene Pessoal e Cosméticos (Abihpec), diz que a expectativa de fim de ano para o setor é positiva e cita como exemplo as vendas de cosméticos, que foram muito prejudicadas na pandemia. Considerando produtos como esmaltes e maquiagem, a retração foi de 2% em maio, em relação ao mesmo mês de 2020, e a indicação é de que os números de junho, ainda não consolidados, coloquem as vendas no campo positivo.
A preocupação é em como continuar a conter o impacto dos custos com o ambiente pouco favorável a reajustes de preços. “Vamos ter rentabilidade menor, ninguém é bobo de perder participação de mercado”, diz Basílio.
No setor de moda, o otimismo também se sobrepõe. Dados da consultoria IEMI -Inteligência de mercado apontam crescimento de 16% em relação a 2020, em valores nominais. “A abertura dos canais e a vacinação deixam o cenário macro bastante favorável”, diz Roberto Funari, presidente da Alpargatas, dona de Havaianas e Osklen.
Próxima do fim de temporada, a coleção outono-inverno teve boas vendas e reforçou o caixa das companhias, que chegarão ao fim de ano com estoques ajus tados. Edmundo Lima, presidente Abvtex, associação das varejistas têxteis, fala em cenário positivo, se beneficiando do momento em que o consumidor está voltando às compras.
A visão é compartilhada por Fernando Pimentel, à frente da associação da indústria têxtil. Os dois destacam, porém, que a inflação da indústria, que chegou a 25% no caso dos têxteis, deve levar ao aumento de preços de alguns produtos e à necessidade das fabricantes e varejistas a diversificarem seus mix de produtos para atender aos diferentes tamanhos de bolsos dos consumidores. “Há uma possibilidade do preço da roupa chegar mais caro no fim do ano, mas não vejo explosão de preços. Acredito que seja algo em torno de 5% em 12 meses, no agregado”, argumenta Pimentel.
Já para o segmento de eletrônicos e eletrodomésticos o cenário pode exigir ainda mais adaptações. Segundo Fernando Baialuna, diretor de varejo da GfK, o setor cresceu na pandemia em faturamento, tendo preços mais elevados e vendendo produtos premium. “Para a classe alta já passou o período de investir no lar. Já as classes C e D ainda não têm confiança similar ao pré-pandemia. O repasse de preços já está esticado, é preciso estimular o consumo de unidades.”
Baialuna diz que a Black Friday, principal data para a categoria, seja de maiores percentuais de desconto e com oferta de itens intermediários, que têm preços mais acessíveis, embora ofereçam algumas características de maior qualidade. “Vai ser uma Black Friday modestamente maior que ano passado, com boa oportunidade de trabalhar o mix de produtos.”
Fonte: Valor Econômico - Empresas, por Raquel Brandão — De São Paulo, 19/07/2021

