
Seguindo o bom desempenho da indústria e do varejo em maio, o segmento de serviços foi mais um a sinalizar tendência de retomada da atividade após o choque provocado pela segunda onda da pandemia em março. A recuperação no setor, no entanto, segue mais arrastada, desigual e sujeita a um número maior de incertezas, com destaque para a evolução do surto de covid-19 no país, avaliam economistas.
O volume prestado de serviços avançou 1,2% entre abril e maio, feito o ajuste sazonal, segundo a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), divulgada ontem pelo IBGE. O resultado sucedeu uma alta de 1,3% na medição anterior (dado revisado de aumento de 0,7%) e ficou praticamente em linha com a mediana de 16 estimativas coletadas pelo Valor Data (1,3%).
Em relação a maio de 2020, os serviços avançaram 23%, impulsionados pela base de comparação fraca. Ante fevereiro do ano passado, mês anterior à chegada da pandemia no país, o setor cresceu 0,2%. Esta é a segunda vez em meio à crise sanitária que os serviços superam o patamar pré-pandêmico. A primeira foi em fevereiro deste ano, quando chegaram a subir 1,2% nessa medida.
A retomada foi interrompida pelo recrudescimento da pandemia no mês seguinte, quando houve nova imposição de medidas de isolamento e o volume prestado de serviços caiu 3,4%. Os governos locais têm flexibilizado essas restrições desde abril, reabertura que prosseguiu em maio e se refletiu em maior dinamismo das atividades que dependem de aglomeração social.
Dos cinco componentes da PMS, três cresceram em maio frente a abril. A maior expansão, de 17,9%, ocorreu no setor de serviços prestados às famílias. “À medida que há menos medidas restritivas e a vacinação aumenta, os serviços que exigem maior contato voltam a operar e há maior confiança dos consumidores para frequentar restaurantes e hotéis”, afirmou Rodrigo Lobo, gerente da pesquisa do IBGE.
Rodolpho Tobler, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), avalia que a redução das restrições e o melhor entendimento das empresas de como operar no “novo normal” explicam o comportamento positivo dos serviços em maio. O setor, contudo, ainda mostra reação mais lenta se comparado à indústria e ao comércio e não retomou totalmente o tombo de março, ponderou Tobler.
“O caminho de recuperação dos serviços é mais longo”, apontou. Em seus cálculos, o setor ainda registra perda de 1% na comparação com março, retração que chega a 7,2% nas atividades prestadas às famílias. “Esse setor tinha caído 28% em março e segue com recuperação em ritmo mais lento que os outros, por mais que tenha melhorado.”
Para Rodolfo Margato, economista da XP Investimentos, os segmentos voltados às famílias, que ainda seguem muito abaixo dos níveis anteriores ao surto de covid, devem puxar a retomada dos serviços nos próximos meses. Conforme já era previsto, foram essas atividades que lideraram o crescimento da PMS no quinto mês do ano, observou.
Margato ressalta o aumento de 18% na atividade do setor de alojamento e alimentação, um dos componentes dos serviços prestados às famílias. Este desempenho, para ele, está relacionado à volta da circulação de pessoas nas ruas. Outro fator que ajudou na recuperação dos serviços em maio foi a alta da renda disponível no curto prazo, acrescenta o economista, influenciada pela retorno dos pagamentos do auxílio emergencial, ainda que em valor e abrangência menores.
“Após um ano de fecha e abre das economias, consumidores estão ansiosos para aumentar e manter um grau de mobilidade mais elevado. A forte expansão no consumo de serviços presenciais reflete justamente isso”, comentou Alejandro Ortiz Cruceno, economista da Guide Investimentos. “Se com o atual grau de restrição - que é bastante menor, mas ainda existe - o setor está conseguindo recuperar perdas, é esperado que, com o avanço cada vez mais intenso da vacinação, essa demanda cresça ainda mais”, completou Cruceno.
César Garritano, economista da corretora Renascença, afirma que o aumento da população imunizada deve sustentar trajetória favorável dos serviços nos próximos meses, mas pondera que uma série de fatores impede reação mais acelerada do setor. São eles, segundo Garritano, a lenta retomada do mercado de trabalho; a dificuldade de expansão dos rendimentos; o nível desconfortável da inflação; o elevado endividamento das famílias e, por fim, as “cicatrizes” de médio e longo prazo deixadas pelo longo período de pandemia.
“Não conseguimos imaginar recuperação total do setor no curto prazo. Isso fica mais para a segunda metade do ano, mas, se houver novas ondas que exijam novas medidas restritivas, esse cenário vai por água abaixo”, diz Tobler, do FGV Ibre.
Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Arícia Martins e Gabriel Vasconcelos — De São Paulo e do Rio, 14/07/2021

