Até agora, o fim do mundo que chegou a ser previsto para as obras de infraestrutura com o impacto da Operação Lava-Jato, da Polícia Federal, que investiga desvios na Petrobras e prendeu dirigentes das principais construtoras brasileiras contratadas pela empresa de petróleo, não aconteceu.

Alguns projetos foram interrompidos, outros sofreram atrasos, mas muitos ainda seguem em ritmo normal. A dúvida é até quando. O cenário de terra arrasada esperado para este ano pode acabar adiado para o ano que vem ou o mercado pode se abrir a construtoras estrangeiras para finalizar o trabalho inacabado pelas empreiteiras nacionais.

"O consumo do aço está concentrado em três segmentos de negócios: construção civil, indústria automobilística e máquinas e equipamentos. Dois deles, construção civil e máquinas e equipamentos, estão sendo fortemente afetados pela Lava-Jato. Qual será o tamanho desse impacto ainda não sabemos", diz Marco Polo de Mello Lopes, presidente-executivo do Instituto Aço Brasil.

"A Lava-Jato tem efeito, mas talvez não tenha tido o efeito assustador que o mercado estimava", afirma José Carlos Martins, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).

A expectativa com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), os investimentos em infraestrutura e na indústria do petróleo, além da realização de eventos como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos de 2016, era de impulso à indústria do aço. Ajudaram, mas não tanto.

O Brasil possui um consumo per capita de aço muito baixo. Em 1980 era de 100 kg. Hoje é de 126 kg. No mesmo período, o consumo per capita da China foi de 34 kg para 510 kg. A Lava-Jato lançou sombras de incertezas que ainda não foram devidamente quantificadas.

Um estudo da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) tentou levantar o tamanho do estrago. O trabalho "Investimentos em infraestrutura e P&G com execução ameaçada no Brasil", publicado em março, projetava um quadro desalentador.

Nada menos de 109 obras de infraestrutura, duas gigantescas unidades de refino (Abreu e Lima e Comperj), duas plantas de fertilizantes e 31 contratações de embarcações junto a 18 estaleiros, em um total de 144 empreendimentos, corriam o risco de paralisação por causa do envolvimento de empreiteiras na operação da Polícia Federal. Os projetos somavam R$ 423,8 bilhões, equivalente ao PIB de Minas Gerais.

O levantamento foi feito quando a Petrobras já havia suspenso contratos com 25 empresas no Brasil. Treze eram construtoras envolvidas nas mais importantes obras de infraestrutura do país e em grandes empreendimentos no setor de Petróleo e Gás (P&G). Quatro meses depois, a Firjan considera o estudo desatualizado.

Muitas obras resistiram até agora aos impactos do escândalo. A Usina de Belo Monte, construída a um custo aproximado de R$ 33 bilhões, no Pará, está com 70% das obras prontas. O projeto é tocado pelas construtoras Andrade Gutierrez, Odebrecht, Camargo Corrêa, Queiroz Galvão, OAS e outras cinco companhias, todas sob investigação da Lava-Jato.

Quando estiver em funcionamento, Belo Monte será a terceira maior hidrelétrica do mundo e a maior inteiramente brasileira. Odebrecht e Andrade Gutierrez integram o consórcio Rio Mais com a construtora Carvalho Hosken nas obras do Parque Olímpico, sede da maioria das competições dos jogos, orçadas em R$ 1,375 bilhão, também em ritmo regular.

A Odebrecht também participa do projeto de construção da Linha 4 do metrô do Rio, outra obra em ritmo normal. O envolvimento das construtoras em irregularidades na Petrobras é apenas uma das causas da alteração do cronograma de expansão de mais de 60 quilômetros da malha do Metrô de São Paulo, orçada em R$ 45 bilhões.

Já as obras do Complexo Petroquímico do Rio (Comperj), iniciadas em 2012 a um custo estimado de R$ 11,6 bilhões, que, além da Odebrecht, inclui as empreiteiras Toyo e UTC, também investigadas pela Lava Jato, foram paralisadas. "Os contratos assumidos seguem normalmente o cronograma", informa nota da Odebrecht Infraestrutura.


Fonte: Valor - Empresas, por Paulo Vasconcellos, 13/07/2015