A queda de quase três pontos do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de dezembro até maio - que desacelerou de 6,29% para 3,6% no período - ainda não foi percebida pela maioria de pequenas e médias empresas como um fator positivo para suas atividades. É o que mostra o Índice de Confiança do Pequeno e Médio Empresário (IC-PMN), elaborado pelo Insper em parceria com o Santander e divulgado com exclusividade ao Valor.
Entre 1.292 gestores do comércio, indústria e serviços entrevistados em junho, 39,2% afirmaram que a perda de fôlego da inflação não tem efeito sobre os negócios. Na média, 20% avaliam que os preços mais comportados resultarão em redução de custos, enquanto para 18,7% dos pesquisados o movimento implica estabilidade dos negócios. As duas respostas menos citadas foram aumento nas vendas (13,5%) e possibilidade de investimentos e empréstimos (6,7%).
A proporção elevada de companhias de pequeno e médio porte que julgam não serem afetadas pela inflação menor foi uma surpresa, diz Gino Olivares, professor do Insper e responsável pelo indicador. "Esperávamos uma resposta mais positiva", afirmou, o que pode não ter ocorrido ainda, segundo ele, porque a desinflação foi recente e rápida. "A surpresa favorável com a inflação foi grande e num período curto. Não podemos chegar à conclusão que a inflação não afeta os negócios dessas empresas."
Segundo Olivares, o primeiro benefício direto da descompressão inflacionária é o aumento do poder de compra da população, com a recomposição de renda que ocorre mesmo com os reajustes nominais mais contidos. Os dados mais recentes de mercado de trabalho já mostram essa tendência, que, se continuada, vai se transformar em maior nível de consumo.
Na edição de junho da pesquisa, 14,5% das firmas do ramo do comércio disseram esperar vendas maiores como resultado da inflação mais comedida. Nos serviços e na indústria, essa fatia foi mais reduzida, de 12,3% e 12,2%, respectivamente. Para o professor do Insper, o resultado faz sentido. "O comércio vai sentir primeiro os ganhos reais de salário, que terão impacto positivo sobre as vendas."
Outro efeito favorável da inflação mais baixa, de acordo com Olivares, é a redução de custos, mais mencionada por empresários do ramo industrial (25,2%). Embora a pergunta sobre inflação se refira ao índice ao consumidor, ele observa que os Índices Gerais de Preços (IGPs), que indexam contratos e contêm a evolução dos custos ao produtor, estão em terreno negativo. Nos 12 meses até junho, o IGP-M acumula recuo de 0,78%.
Olivares acrescenta que a inflação em declínio abre espaço para juros menores, o que contribui positivamente com o nível de atividade em um segundo momento. Ainda assim, ele acredita que a recuperação da economia está longe de ser consolidada, porque a capacidade ociosa é muito alta.
Entre a edição de março e a de junho da enquete, o IC-PMN subiu 0,2%, para 65,2 pontos, comportamento que o Insper avalia como sinal de estabilização da economia. "Podemos interpretar esse resultado como uma pausa que o pequeno e médio empresário está fazendo para analisar com mais calma a evolução do cenário econômico", comentou Olivares.
Para o professor, a crise política desencadeada após as delações da JBS, envolvendo o presidente Temer, deve ter menos impacto na "economia real" do que nos preços de ativos. "A atividade parou de piorar, e o evento de 17 de maio não mudou muito esse quadro."
Fonte: Valor - Macroeconomia, por Arícia Martins, 05/07/2017

