Após definir as micro, pequenas e médias empresas como prioridade, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) tem anunciado uma série de medidas para facilitar o acesso dessas companhias a recursos da instituição. No entanto, ainda persistem entraves. O crédito a esse segmento é hoje muito dependente do apetite dos bancos que repassam os recursos do BNDES. São eles que tomam o risco das operações e, em meio à crise, se retraíram. O caso mais emblemático é o do Cartão BNDES, cujos desembolsos recuaram 59% no ano, até maio, somando R$ 1,152 bilhão.

Numa tentativa de amenizar a situação, o BNDES abriu novas linhas, criou um canal para que pequenos empresários tenham mais informações sobre os produtos disponíveis e estuda formas de usar as "fintechs", empresas de tecnologia financeira, para melhorar a distribuição dos recursos. "Estamos trabalhando para melhorar o acesso ao crédito e reduzir prazos" , afirma Ricardo Ramos, diretor de operações indiretas e de comércio exterior e fundos garantidores do banco.

Outra iniciativa é a automatização da aprovação de capital de giro para pequenas e médias empresas, que começará em julho com operações para o setor agrícola e será estendida aos demais segmentos até o começo do próximo ano.

O agente repassador não será dispensado, diz Ramos, mas o processo ficará mais ágil. O prazo de liberação poderá ser reduzido de um mês para um dia. As instituições ainda discutem qual o custo dessa modalidade de financiamento, se será atrelado à Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) ou a taxa de mercado. Uma possibilidade é que essas operações sejam cobertas pelo Fundo Garantidor de Investimento (FGI), do próprio BNDES, voltado para empresas que encontram dificuldades em atender às garantias exigidas pelos bancos.

Em outra frente, o Banco do Brasil (BB) firmou parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) para o repasse das linhas de capital de giro Progeren e Proger Urbano, que conta com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). Os agentes do Sebrae ficarão responsáveis por selecionar empresas que precisam de financiamento. "Já foram identificadas 125 mil empresas aptas a tomar empréstimo", diz Guilherme Afif Domingos, presidente do Sebrae. Segundo ele, um dos fatores que inibem o apetite do mercado em repassar as linhas do BNDES é que, embora o risco das operações fique com as instituições financeiras, o spread cobrado por elas é semelhante ao exigido pelo banco de fomento.

Ao mesmo tempo, o aumento da inadimplência de micro, pequenas e médias empresas - que ficou acima de 6% no ano passado - tornou os bancos mais exigentes. As instituições passaram a pedir garantias, como imóveis e recebíveis, para reduzir o risco das operações de crédito. 

No caso do Cartão BNDES, segundo Afif, também pesa o fato de que os bancos preferem trabalhar com seus próprios produtos. Apesar de o BNDES ter dobrado, para R$ 2 milhões, o limite do cartão, os bancos continuam oferecendo valores mais baixos, alegando que o teto depende do risco do cliente. Nas maiores instituições, com exceção do Santander, o limite oferecido era de R$ 1 milhão. A taxa nesse produto estava em 1,12% ao mês em junho, abaixo da cobrada, por exemplo, nas linhas de capital de giro.

A Caixa informa, por meio de sua assessoria de imprensa, que não houve mudança em relação a regras de concessão de limites. De acordo com o banco, que tem 60 mil contratos de cartões do BNDES, o volume médio desembolsado por mês, em 2017, foi de R$ 70 milhões até maio.

Com o objetivo de destravar os canais de crédito para as empresas, o Sebrae discute com o BNDES a possibilidade de usar as fintechs no repasse do dinheiro. Para isso, o Sebrae poderá usar o fundo de aval (Fampe), que tem saldo de R$ 800 milhões, para garantir a operação, assim como o fundo BNDES FGI também poderá ser usado para complementar as garantias oferecidas pelas empresas.

O Sebrae também cogita oferecer diretamente o cartão BNDES, usando a garantia do fundo de aval para cobrir o risco. "A ideia é ser um agente de distribuição alternativo aos canais tradicionais", afirma Afif.

Pesquisa feita pelo Sebrae no ano passado mostrou que a maioria dos pequenos negócios se financia fora do sistema bancário: negociam prazo com fornecedores (67%), usam cheque pré-datado (46%) e especial (29%) e cartão de crédito empresarial (28%).

Fonte: Valor - Finanças, por Silvia Rosa e Talita Moreira, 03/07/2017