O mercado está atento a indicadores que possam lhe apontar cenários futuros a respeito do desempenho econômico de atores marcantes no mundo dos negócios. Não à toa, observa os dados econômicos internacionais na tentativa de identificar quando se iniciará o ciclo de aperto monetário nos países desenvolvidos. Com essa parte do mundo experimentando os primeiros sinais de alguma “normalidade”, os efeitos da retomada de atividades econômicas afetadas pela pandemia aparecem nos dados: os indicadores econômicos têm evoluído de forma errática, algo comum em períodos de recuperação de crises. Todavia, alguns parecem sugerir possíveis tendências futuras dessas economias.

Para identificar se e quando haverá um ciclo de aperto econômico global, faz sentido analisar a economia americana. Há vários motivos para justificar essa opção “metodológica”: os EUA apresentam crescimento relativamente robusto entre as economias desenvolvidas; a inflação por lá está mais elevada do que nos demais países avançados; o mercado financeiro americano é o mais dinâmico e desenvolvido do mundo; e, por fim, o dólar americano é a mais importante moeda de reserva e do comércio mundial. Em face desses fatores, quaisquer mudanças na precificação de ativos por lá desencadeia efeitos sobre a precificação de ativos no resto do mundo.

Um aspecto adicional a respeito da economia americana é que o Fed é um banco central sui generis, com duplo mandato, que consiste em buscar simultaneamente atingir duas metas: o controle inflacionário e a manutenção de um alto índice de emprego. Isso tem importância em quaisquer análises sobre o timing de mudanças na sua política monetária.

Por lá, a meta de inflação é de média anualizada em torno de 2%. Observa-se que os dois principais índices inflacionários (o PCE e o CPI) se elevaram nos últimos três meses e estão muito próximos dessa meta. O repique altista pode intensificar-se por conta de alguns fatores. O primeiro deles: os dados de inflação baixa, do início da pandemia, devem começar a sair da base de cálculo ainda em 2021; o segundo e mais importante, é a existência de alguma inflação represada entre os estágios de processamento e o consumidor final.

Dado o histórico de repasse inflacionário e o salto do Índice de Preços ao Produtor (PPI) local nas últimas coletas, há a possibilidade de transmissão inflacionária para o consumidor final em aproximadamente 2 pp. Isso ganha força se observarmos os PMIs de manufatura e de serviços, que sugerem a continuidade da pressão inflacionária nas próximas medições. Entre os fatores que podem afetar esses indicadores estão a forte demanda e o aumento nos custos. Já entre os que não ratificam essa perspectiva, destaca-se as dúvidas sobre a sustentabilidade da demanda. De modo geral, as informações que capturam a economia real sugerem movimentos inflacionários, ao passo que os dados sobre expectativas, que são mais voláteis, mostram incerteza sobre a evolução desses indicadores.

O Fed veio a público a fim de tranquilizar o mercado a respeito da inflação. O Fomc entende que a pressão é passageira e tem certa tolerância com o nível elevado no curto prazo. Isso acontece porque existe outra meta a ser alcançada pela instituição: a de máximo emprego, que passa pela tentativa de mensurar o nível de ocupação que não gera superaquecimento econômico com descontrole no nível de preços. No entanto, diferentemente do que acontece com a inflação, para a qual existem índices de referência e meta pré-estabelecida, no caso do emprego há uma série de indicadores que mensuram a temperatura da economia como um todo e, muitas vezes, apontam caminhos divergentes.

De modo geral, os indicadores de emprego mostram que há um caminho longo para percorrer até um retorno para níveis anteriores à pandemia. Por outro lado, o nível de utilização da capacidade instalada das fábricas já retornou para o mesmo de 2019, as vendas no varejo de maio de 2021 cresceram 20% em relação ao mesmo período de 2019, e as concessões de alvarás residenciais estão próximas àquelas vistas antes de 2008, melhor resultado da série histórica.

O fato é que o nível de atividade, somado a indicadores de inflação elevada, não parece ser ainda suficiente para convencer o Fed a promover uma inflexão. Sabe-se que as medidas fiscais de estímulo ao consumo do último ano inflaram artificialmente alguns desses indicadores, portanto, espera-se sua correção em alguma magnitude. Mas, mensagens da autoridade monetária americana indicam que a alteração na taxa de juros ocorrerá apenas quando esses estímulos de curto prazo conseguirem promover crescimento sustentável da economia, sem necessidade de novas intervenções.

Com essas informações, é possível identificar um ponto provável de reajuste na taxa de juros: o segundo trimestre de 2022. Isso porque a inflação tende a fugir da meta do Fed até esse período, por conta dos motivos já citados.

Essa possibilidade, porém, ganhará força apenas se os indicadores de atividade, principalmente do mercado de trabalho, surpreenderem positivamente, mês a mês. Caso isso não ocorra, o Fed parece tender a manter uma posição mais cautelosa. Se esse for o caminho adotado, a taxa de juros pode manter-se estável por muito mais tempo do que o mercado espera, sem inflexões à vista.

 

 


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Carla Argenta e Daniel Vasconcelos, 30/06/2021