No Brasil, as discussões ligadas à acessibilidade só ganharam força de dez anos para cá, período em que a pauta passou a ser mais recorrente entre os governos e a fazer parte de políticas transversais. Hoje já existem secretarias específicas para tratar das demandas de deficientes físicos e pessoas idosas. "Trabalhamos desde 2013 com o plano ′São Paulo mais Inclusiva′, que tem cinco eixos e prevê ações de inclusão em todas as secretarias", diz Marianne Pinotti, titular da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida, de São Paulo. Os cinco eixos a que ela se refere criam infraestrutura de acesso em todas as áreas da atuação social da prefeitura, com interferência reforçada nos transportes, vias públicas, educação, saúde, cultura,  trabalho e esportes.

O último mapa da deficiência na cidade registra 2,75 milhões de pessoas que se declararam com algum tipo de deficiência ­ 800 mil com deficiência grave de mobilidade, visão ou audição. No eixo do transporte, algumas ações já foram colocadas em prática. "Hoje 86% da frota de veículos são adequados, com piso baixo e alguns com comunicação visual", diz Marianne. Outra interferência urbana que atende não só aos ciclistas, mas também aos cadeirantes são os 413 quilômetros de ciclo faixas. A secretária cita ainda a reforma de 19 parques municipais, cujos espaços agora facilitam o acesso e têm brinquedos para criança com deficiência.

O fato de ter sido escolhido como sede dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016 levou o Rio de Janeiro a desengavetar vários projetos de mobilidade e acessibilidade, para fazer bonito aos olhos do mundo e do Comitê Olímpico Internacional (COI). Apesar do desastre que matou dois ciclistas no desabamento de parte de um trecho oceânico da ciclo faixa recéminaugurada e de ter decretado estado de calamidade, devido a falta de recursos inclusive para terminar as obras do megaevento, algumas projetos caminharam.

"Todos os BRTs e VLTs, por exemplo, foram adaptados ou  implantados para garantir acessibilidade para cadeirante com espaço específico com cinto de segurança", diz Carlos Alberto Rocha, secretário de Pessoas com Deficiência do Rio de Janeiro. O BRT, que é um ônibus articulado e trafega em faixa exclusiva, hoje funciona em dois corredores: no Transoeste, com 58 km de extensão, 62 estações e três terminais e no Transcarioca, que tem 39 km, 47 estações e cinco terminais. Mais dois corredores estão em  construção: o Transbrasil e o Transolímpica, que juntos somam 54 km. Duas das três linhas previstas para o tráfego do VLT também já foram implantadas e estão em período de teste. Juntas irão somar 28 km de trilhos com 32 paradas. O VLT vai circular pelo Centro do Rio e Zona Portuária. "Todos os veículos e estações têm plataforma com piso tátil e rampa em lugares específicos", diz o secretário. Cruzando acessibilidade com lazer e turismo, a cidade implementou mais três projetos. Um deles é o Bairro Maravilha, que prevê urbanização e acessibilidade em 59 bairros, 21% deles na Zona Norte e 10% na Zona Oeste.

Já o projeto Rotas Acessíveis ofereceu acessibilidade em dez pontos turísticos da cidade, que vão do Jardim Botânico a Vista  Chinesa, Barra da Tijuca, Windsor, Mesa do Imperador, Corcovado, Cinelândia e Pão de Açúcar. E por fim construiu em um espaço abandonado e degradado o Parque Madureira, com sua primeira parte inaugurada em 2012, com 2,15 km. A última expansão está prevista para o segundo semestre deste ano e vai completar os 3,15 km de extensão. O parque tem percursos e equipamentos igualmente acessíveis. "O lugar já se transformou na segunda maior área de lazer do Rio, atrás apenas do Aterro do Flamengo. Demorou, mas avançamos nesta questão", diz Rocha.


Fonte: Valor - Brasil, por Roseli Loturco, 29/06/2016