A geração de vagas com carteira assinada voltou a decepcionar em maio, reforçando a percepção de que o desempenho pior do que o esperado da atividade em abril teve continuidade no mês seguinte. O resultado reforça o temor de uma nova queda do PIB no segundo trimestre e alguns economistas já esperam saldo de vagas neste ano inferior a 2018.

O mercado de trabalho criou 32,1 mil vagas formais em maio, pior resultado para o mês desde 2016, quando foram perdidas 72,6 mil vagas. O resultado também ficou abaixo da mediana das projeções do mercado, de 70 mil, segundo levantamento do Valor Data. No ano, foram criados 351,1 postos de trabalho com carteira assinada e, em 12 meses, 474,3 mil vagas, considerando números ajustados para incluir dados enviados com atraso pelas empresas.

 

 

Dos oito setores acompanhados, três tiveram saldo negativo. Foram fechadas 11,3 mil vagas no comércio, 6,1 mil vagas na indústria da transformação e 415 vagas em serviços industriais de utilidade pública. Por outro lado, foram criados 627 empregos na indústria extrativa mineral, mil na administração pública, 2,5 mil em serviços, 8,5 mil na construção civil e 37,3 mil na agropecuária, com destaque para contratações nos cultivos de café e laranja.

Por regiões, apenas no Sul foi registrado saldo negativo de emprego em maio (-10.935). Por outro lado, a região Sudeste liderou a criação de postos com a geração de 29.498 empregos; seguido por Centro-Oeste (6.148); Norte (4.110) e Nordeste (3.319).

Para o secretário do Trabalho do Ministério da Economia, Bruno Dalcolmo, o desempenho em maio do emprego com carteira está diretamente relacionado ao comportamento da economia brasileira que está com "dificuldades de alçar voo". Segundo o subsecretário de Políticas Públicas e Relações do Trabalho, Matheus Stivali, muitos investidores estão aguardando a aprovação da reforma para colocar recursos no país.

Essa também é a expectativa do Santander. Diante do resultado decepcionante do mercado de trabalho, ele deve revisar para baixo sua estimativa de abertura de 650 mil postos em 2019. Ainda assim, o banco acredita que a geração neste ano pode ficar em torno de 500 mil vagas, acima das 421 mil de 2018, considerando o saldo sem ajuste.

"Acreditamos que pode ter um ritmo um pouco mais forte do que no ano passado por causa da expectativa de melhora dos indicadores de confiança da economia no segundo semestre", diz Lucas Nobrega, economista do Santander. Segundo ele, a aprovação da reforma da Previdência também aumenta a probabilidade de estímulo à atividade via taxa de juros.

Já Rafael Leão, economista-chefe da Parallaxis, não acredita em uma aceleração do emprego formal no segundo semestre, mesmo que a reforma seja aprovada. A consultoria deve revisar sua projeção para o saldo do emprego para cerca de 380 mil, abaixo dos 440 mil previstos anteriormente.

Para ele, o efeito prático da reforma deve se dar no longo prazo. "No curtíssimo prazo, no segundo semestre, não acredito que vá haver uma recuperação tão forte da atividade", reforça. "Pode haver algum retorno de investimento que esteja represado, mas não acredito que será algo que vá levar a um crescimento superior a 0,8% para o PIB".

Leão avalia que o resultado do Caged de maio pode gerar novos reajustes nas estimativas de crescimento da economia neste ano. Ele mesmo tem viés de baixa para sua projeção de 0,8%. "Vamos esperar o resultado do segundo trimestre. Se vier uma nova retração, significa que o país está em recessão, aí não vai ter jeito de não rever para baixo", afirma.

O presidente Jair Bolsonaro afirmou, em sua transmissão pelo Facebook, que o resultado do Caged "não é bom, poderia ser melhor", mas pelo menos há empregos sendo gerados. "Reconheço que a economia não vai bem", disse. (Colaborou Carla Araújo, de Brasília)


Fonte: Valor - Brasil, por Edna Simão e Thais Carrança - e Brasília e São Paulo, 28/06/2019