Apesar de ter ficado praticamente em linha com as expectativas do mercado, a prévia da inflação oficial de junho ainda mostrou um cenário pressionado para os preços e preocupante para o Banco Central, avaliam economistas ouvidos pelo Valor.

Segundo eles, a aceleração dos núcleos, dos bens industriais e a recomposição nos preços de serviços reforçam a percepção de que a normalização da política monetária seguirá em ritmo mais rápido, com probabilidade maior de que a Selic termine 2021 acima do nível neutro (aquele que não acelera nem contrai a economia), estimado em 6,5%.

Divulgado hoje pelo IBGEIPCA-15 avançou de 0,44% em maio para 0,83% este mês, maior taxa para o período desde 2018 (1,11%). A estimativa mediana de 30 instituições financeiras e consultorias ouvidas pelo Valor Data previa aumento de 0,85%. Em 12 meses, a inflação acumulada pelo IPCA-15 se distanciou ainda mais do teto da meta perseguido para 2021, de 5,25%, ao alcançar 8,13%, vindo de 7,27% um mês antes.

O Brasil provavelmente está em um dos piores momentos para a inflação, avalia Tomás Goulart, economista-chefe da Novus Capital, mesmo que a prévia do IPCA tenha ficado abaixo do previsto pela asset. “Os núcleos seguem pressionados, temos pressão de bens industriais e de alimentação fora do domicílio, que é um misto de serviços e alimentação no domicílio”, comentou Goulart.

Segundo cálculos da MCM Consultores, a média dos cinco núcleos do IPCA-15 acompanhados pela autoridade monetária ficou em 0,62% na medição atual, ante 0,37% na anterior. Em 12 meses, avançou de 4,14% para 4,77%, sendo que o centro da meta é 3,75%. Por excluírem ou reduzirem o impacto de preços voláteis sobre os indicadores, os núcleos são considerados medidas subjacentes de inflação.

O economista-chefe da Novus também chama atenção para o comportamento dos bens industriais, setor que figura como uma das principais pressões no IPCA desde meados do ano passado, devido ao repasse do choque de custos ao produtor e a um quadro global de escassez de insumos. De maio para junho, a inflação de produtos industriais subiu de 0,99% para 1,05%, e alcançou 8,34% em 12 meses, ante 7,44% na leitura anterior.

“Esse é um problema global não revertido, e a inflação no Brasil vai caminhar de acordo com o que está acontecendo em outros países”, comentou Goulart. Ele pondera que, observando os Índices Gerais de Preços (IGPs), da Fundação Getulio Vargas (FGV), a apreciação do real e a perda de fôlego nas cotações de commodities já estão moderando a inflação, mas esse alívio ao consumidor só é esperado mais para frente.

Em uma movimentação mais tímida se comparada à dos produtos industriais, mas que mesmo assim chamou atenção de especialistas, a inflação dos serviços seguiu em tendência de recomposição: deixou queda de 0,38% em maio e subiu 0,30% agora, e também ganhou fôlego em 12 meses, ao aumentar de 1,56% a 2,16%.

O estrategista-chefe do banco digital Modalmais, Felipe Sichel, afirma que os serviços subiram ligeiramente acima do esperado (0,28%). “Esse grupo em especial enseja preocupação ao BC quanto a dispersão dos choques temporários na economia”, observou Sichel, que também se disse surpreendido pela alta de 1,05% de bens industriais. A expectativa era de avanço de 0,84%.

“Além disso, serviços subjacentes registraram 0,54% (versus 0,08% do mês anterior) e industriais subjacentes recuaram para 0,70% (versus 0,98%), ambos valores elevados”, acrescentou. Ele menciona, ainda, o comportamento do índice de difusão. De maio para junho, o percentual de itens do IPCA-15 com reajuste no mês caiu de 67,6% para 65,7%. Ainda assim, a difusão segue em nível alto e permanece acima de 60% desde outubro de 2020, diz Sichel.

De acordo com Tatiana Nogueira, economista da XP Investimentos, que também se disse surpreendida por alta maior dos serviços, o IPCA-15 reforça a visão de que a inflação ainda está pressionada no curto prazo. Isso ocorre, segundo Tatiana, devido ao repasse de custos aos produtos industrializados e à aceleração dos preços de serviços. “Por ora, mantemos a projeção do IPCA para junho em 0,63% e para o ano em 6,2%”, comentou.

Goulart, da Novus Capital, estima alta de 5,7% para o IPCA em 2021, mas pondera que essa projeção pode ser elevada devido às tarifas de eletricidade. Em relação à política monetária, o economista avalia que, com o balanço de riscos mais desfavorável do que o antecipado anteriormente pelo BC, a Selic deve ser elevada a 7% até o fim do ano — ligeiramente acima do que a autoridade monetária considera que seria a taxa neutra.

“O IPCA-15, apesar de vir abaixo da mediana das expectativas de mercado, continua alto e sua abertura é preocupante para o BC”, aponta Sichel, do Modalmais. “Para frente, mantemos projeção de elevação da Selic de 0,75 ponto percentual na reunião de agosto do Copom [Comitê de Política Monetária], com risco razoável de elevação de um ponto”, completou.

 

Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Arícia Martins, Valor — São Paulo, 25/06/2021