Com alta de juros e valorização da taxa de câmbio brasileira, investidores têm gradativamente revisado as suas carteiras e já se percebe algum efeito nos fluxos. Porém, gestores de recursos e especialistas em investimentos não veem razão para mudanças estruturais nos portfólios, mas alguns ajustes.

Em geral, a recuperação da economia sugere ainda bons ventos para a bolsa, especialmente na gestão ativa. Os executivos acham que o prêmio dos títulos públicos atrelados à inflação está perto de se esgotar e que é hora de buscar oportunidades em crédito privado no secundário. O dólar volta a ser opção de hedge para alguns, apesar de no curto prazo as carteiras com exposição à moeda forte mostrarem resultados negativos.

Um dos termômetros desse rebalanceamento é a captação dos fundos de renda fixa, que neste ano atraíram R$ 123,1 bilhões até o dia 17, enquanto os portfólios de ações perderam fôlego, com ingressos de R$ 1,9 bilhão. Os multimercados ainda mostram apelo pela diversidade de cenários e estilos, com R$ 73,2 bilhões em dinheiro novo, segundo dados da Anbima. Vale lembrar que nos portfólios conservadores estão os recursos de caixa das empresas e também das entidades públicas.

O ânimo da pessoa física com investimentos diretos em bolsa vai mais devagar. Os dados da B3 até o dia 21 mostram compras líquidas de ações de R$ 6,2 bilhões no ano, resultado das entradas de janeiro e fevereiro porque desde então são quase quatro meses no vermelho, com saídas de R$ 10,1 bilhões.

Dólar abaixo de R$ 5,00 não é estrutural e é ponto de entrada para hedge para quem está mais posicionado em ações

Com o Ibovespa flertando com os 130 mil pontos, esse é um momento mais de gestão ativa do que passiva, diz Tiago Cesar, gestor de fundos de fundos da BNP Paribas Asset Management. “Há uma dispersão grande, de ações que sobem 30%, 40% a outras que caem 20%, 30%. Não é hora de aumentar o risco em renda variável, mas focar na discrepância entre os setores, fazer uma recomposição no relativo”, afirma.

Em meio à correção monetária, o maior valor hoje está no crédito privado. Com o CDI mais alto, o investidor pode voltar a ter retornos na casa dos 6% ao ano. “Dá para olhar desde os ativos líquidos até os estruturados, aumentar a complexidade desse universo.”

Se o objetivo do Banco Central (BC) é elevar a Selic para o nível neutro (que não acelera nem desacelera a inflação), isso significa que a taxa chegará perto de 7% ao ano até dezembro, ante os 4,25% atuais. Nesse cenário as Notas do Tesouro Nacional série B (NTN-B), atreladas à inflação, perdem o charme e a melhor jogada está em buscar crédito no secundário, segundo Alfredo Menezes, sócio da Armor Capital. Vale garimpar empresas que captaram a um percentual do CDI quando a taxa básica estava a 2% ou 3%, diz.

Debêntures de infraestrutura e CDBs até o limite coberto pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) são boas alternativas para a pessoa física. “Tem título pagando 130%, 135% do CDI, parece um belo investimento.”

Já a posição em NTN-B seria mais aconselhável trocar por ativos com prêmio em percentual do CDI ou por pós-fixados puros. Os “órfãos do CDI” voltam a se animar para alternativas líquidas e sem risco aparente. Enquanto no crédito a alta da Selic pode ter efeito restritivo, na carteira do investidor há percepção de ganho de riqueza.

Se o BC ganhar a guerra contra a alta de preços, Menezes acha que os prefixados longos são melhor alternativa aos atrelados ao IPCA. “Por mais que o tamanho do ajuste agora [da Selic] seja maior, onde vai parar a inflação? Ninguém tem certeza. Operar juros longos pode ser uma boa, mas tem que ter certeza de que a inflação inflexionou para tomar a decisão, não é o momento de correr esse risco.”

Por enquanto, o ajuste monetário é insuficiente para fazer o investidor tirar o pé do risco, diz George Wachsmann, chefe de gestão da Vitreo, porque o juro real está longe de chegar a 2% ou 3%. Em tese, a alta de juros atrapalha a bolsa pelo impacto no custo de endividamento das empresas, mas o gestor cita que há dados apontando a recuperação da economia.

O gestor avalia que o maior fluxo para fundos conservadores tem relação com o movimento de alta da Selic, mas acha que é “bobeira” se apegar ao retorno nominal. “O investidor gosta de se ancorar a algumas coisas. A gente tem visto papel pré acima de 10%, mas, se olhar no relativo, o que está apontando o PIB, o cenário de recuperação da pandemia, com o avanço da vacinação, com o que promete não é hora de estar na renda fixa.”

Só neste ano, o saldo de alguns ativos privados teve incremento de quase R$ 25 bilhões até o dia 17, considerando-se letras de crédito e certificados de recebíveis imobiliários e do agronegócio, conforme compilação do Valor Data.

Para quem está indo para a bolsa, Menezes, da Armor, afirma que é preciso avaliar o impacto da alta de juros no endividamento das companhias. Se no ano passado, tiveram acesso a capital barato, abaixo da inflação, agora é importante olhar se a empresa não está alavancada. Companhias que têm geração de caixa são os papéis mais atraentes.

Ex-tesoureiro, ele lembra que apesar de os grandes bancos serem mais tarimbados para emprestar em tempos difíceis, o setor vem perdendo participação de mercado para iniciativas digitais. “Estamos vivendo um momento de rever todo o portfólio. Aquilo que foi bom no ano passado neste muda de figura.”

Embora haja bastante prêmio ao longo dos vencimentos de estratégias de juros, o balanço de risco é elevado, alerta Cesar, do BNP. “Na parte curta da curva, a Selic parece que vai subir mais do que o aperto que o mercado prevê, e na parte intermediária predomina o risco fiscal e político com a eleição em 2022. Nessa classe, a gente tem ficado de fora nas carteiras.”

Com o câmbio abaixo de R$ 5 é possível que o mercado de capitais brasileiro atraia mais recursos estrangeiros para ofertas públicas de ações, mas nesse nível já é “ponto de entrada para hedge para balancear o risco das carteiras que têm mais bolsa hoje”, diz Cesar. Embora a valorização do real tenha sido um detrator das carteiras de ações globais sem proteção cambial, o gestor diz que a valorização dos ativos locais compensou.

Menezes, da Armor, afirma não esperar um real muito forte. No fim do ano, diz, o mercado vai sentir o efeito da zeragem do “overhedge” dos bancos, embora em proporção menor que em 2020, e fica mais próximo o embate para a sucessão no Planalto. “Nunca vi eleição sem volatilidade, embora os dois candidatos tendam a se voltar para o centro”, diz, referindo-se a uma possível polarização entre o atual presidente, Jair Bolsonaro, e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Wachsmann, da Vitreo, acha que o dólar perto de R$ 5 é mais para comprar. No curto prazo, o real pode até se apreciar, mas pensando numa alocação de longo prazo não hã mudança estrutural só pelo ajuste da Selic. “Só elimina as amarras do BC de que o ciclo de juros não está escrito em pedra.”

O Itaú Unibanco não fez alterações nas carteiras recomendadas nem viu mudanças de comportamento do investidor na sua base por causa do ciclo de alta de juros, diz Claudio Sanches, diretor de produtos de investimentos do banco. Embora em termos percentuais, a variação da Selic possa ser significativa, saindo de 2% para a casa dos 6% ao ano, em termos absolutos não é uma variação tão grande, afirma. “A gente continua vendo que outros ativos têm espaço maior [do que a renda fixa]. O BC está aumentado a taxa justamente porque há um movimento de economia positivo.”

Na lista de alocações sugeridas estão multimercados, ações locais e títulos atrelados à inflação de prazo médio, com vencimento em 2024. Sanches também diz que vale olhar para títulos privados atrelados ao IPCA. Embora não perceba dentro de casa uma migração para fundos de renda fixa - talvez por causa da própria recomendação -, ele diz que com a taxa básica aumentando é quase intuitivo que o investidor se acomode em aplicações ligadas ao CDI. “Mas a Selic está subindo porque a inflação está aumentando. Para ter ganho real, tem que correr mais risco.”

Sanches afirma que até o investidor que tem exposição a ativos externos tem compreendido as perdas nessa parte da carteira. O executivo cita que 2020 foi muito educativo para o investidor, que hoje entende mais o que é ganhar e perder ao longo dos ciclos e percebeu o valor da diversificação.


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Adriana Cotias — De São Paulo, 24/06/2021