Segundo ele, só dá para fazer duas coisas para resolver a questão fiscal na qual o Brasil persiste em se enroscar: cortar gastos ou aumentar impostos. Ele lembra que o governo atual até se esforçou para cortar gastos e reformou estatais, melhorando sua gestão, o que já é possível ver nos números, mas claramente se esquiva de atacar o problema fiscal.

“Não quer atacar o problema e nesse momento que tem aumento de arrecadação, não por inflação, mas por termos de troca, ou seja, alta das commodities, que aumenta o PIB nominal além da inflação, o ministro da Economia já está falando em gastar”, diz.

Para ele, não só não resolvemos o problema fiscal, que é resolvível, como estamos falando que, no momento em que algo exógeno, “que não dependeu de coragem e nem do uso do Congresso”, aumenta a arrecadação e melhora o nível de dívida/PIB, já se fala em gastar.

“A reforma fiscal que está indo para o Congresso é horrível. Esse governo não apenas tem capacidade de passar as coisas, mas um problema de formulação. Não quer formular um plano bom. Parte dessa base de discussão”, aponta.

Para Woelz, a proposta não resolve problemas estruturais, traz isenções fiscais para classe alta, não resolve problema de arbitragem entre CLT e empresa na pessoa física, aumenta a tributação das empresas que já é alta em comparação ao resto do mundo e pode ainda prejudicar a abertura de novos negócios no país.

“O governo já perdeu credibilidade para ter reformas. É uma pena; monta a base toda para não fazer nada”, diz Carlos Woelz, sócio-fundador da Kapitalo — Foto: Reprodução

“Não apenas não estamos resolvendo problemas estruturais, como estamos criando novos problemas. E as novas eleições podem prejudicar ainda mais essas perspectivas. Dessa forma, a questão fiscal vai continuar como um risco iminente.”

Foi com pesar que Woelz respondeu à pergunta sobre se há ainda chance de o governo atual fazer alguma reforma significativa na economia. “O governo já perdeu credibilidade para ter reformas. É uma pena; monta a base toda para não fazer nada”, respondeu.

Ele reforçou inúmeras vezes durante a live que a magnitude do nosso problema fiscal é pequeno, porém, há pouca inclinação da atual equipe econômica e governo em resolvê-lo de uma vez por todas.

“As pessoas se perdem, mas a magnitude do problema fiscal brasileiro é pequena. Em equilíbrio, representa 2% a 3% do PIB [Produto Interno Bruto]. Já achei no passado que estava em 2,8% e hoje está em torno de 2% do PIB. É uma magnitude resolvível”, diz, ao citar como base de comparação o da Grécia, que chegou a 12% do PIB e quebrou, e Portugal, que chegou a 8% do PIB, magnitude “gigantesca” na opinião do gestor, mas conseguiu resolver com austeridade que envolveu inclusive o corte de aposentadorias, entre outras ações.

“Quando eu vejo essa questão estrutural brasileira, o tamanho do problema é resolvível. Se a gente não consegue resolver esse problema, merecemos quebrar. E a persistência com que não enfrentamos é impressionante”, pontua.

Para o gestor, a falta de credibilidade que o governo passa sobre a questão fiscal acaba impedindo que o país atraia investidores de fora, uma vez que a taxa de juros local, a 4,25% ao ano é bem mais atrativa do que os juros negativos dos países desenvolvidos, como EUA.

Ele finaliza dizendo que, desse modo, é difícil não ficar “ultrapessimista”. Por outro lado, também não acredita que a questão fiscal seja um problema tão grande que se houver alguma reação negativa e gigantesca o país não teria capacidade de responder. Mas também não consegue ficar “ultranimado”.

Defende que cuidemos da relação dívida/PIB até para nos prepararmos para próximas crises que certamente virão e exigirá dinheiro para apoiar financeiramente a população brasileira.


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Naiara Bertão, Valor — São Paulo, 24/06/2021