Na medida em que os preços de commodities se sustentam em níveis elevados e o crescimento das economias surpreende positivamente, bancos centrais da América Latina podem ser forçados a alterar a sua política monetária de maneira sincronizada ainda em 2021. A perspectiva de uma normalização generalizada das taxas de juros da região tem ganhado força, já que os indicadores de inflação oferecem sinais de alta persistente e ameaçam o cumprimento das metas. Economistas vêm, deste modo, antecipando as projeções de aperto abrangente.

Tendo elevado a Selic em 2,25 pontos percentuais desde março, para 4,25% ao ano, o Brasil não foi o primeiro país emergente a iniciar o ciclo de alta dos juros após a vastidão de estímulos monetários lançados ao redor do mundo em meio a pandemia. Rússia e Turquia, por exemplo, fizeram antes. Mas o banco central brasileiro foi o que abriu a fila na América Latina, num movimento que em breve deve ser acompanhado por outros pares na região, segundo o economista-chefe do Citi para América a região, Ernesto Revilla.
“A tendência em todos os mercados emergentes é que eles subam as taxas de juros. Isto porque a recuperação econômica já está acontecendo e se fortalecerá com a vacinação. Além disso, os dados de inflação estão surpreendendo para cima, principalmente os preços de alimentos e energia”, disse Revilla em entrevista ao Valor. “O Brasil foi pioneiro na região, mas não ficará sozinho. Já vemos pressões em países como México, Chile, Colômbia e possivelmente Peru, que também deve ter um próximo movimento para cima mais cedo ou mais tarde”, acrescentou.
As projeções do Citi para normalização das taxas de juros na América Latina ainda são conservadoras em comparação a outros prognósticos apresentados, mantendo as apostas de que, em 2021, somente o Brasil terá aumentado as taxas de juros. Mas o banco está certo de que não demorará muito mais para que os outros países acompanhem o movimento, o que dá uma certa vantagem para quem tenha começado antes.
“A vantagem para o Brasil é que, ao já ter iniciado o seu ciclo de alta, isso vai diferenciá-lo quando os investidores estrangeiros buscarem retornos. Uma coisa que aumentou a volatilidade recentemente é que o Brasil impôs uma taxa de juros muito baixa e isso afetou o desempenho do real”, observou Revilla, destacando que a projeção oficial do Citi para a Selic no fim de 2021 é de 5,75%, embora esteja atento às projeções e sinais de que a alta possa chegar a um patamar mais alto ainda este ano.
Em relação ao próximo banco central latino-americano a fazer o movimento de alta, a aposta do Citi segue o consenso do mercado. “O próximo na lista é o Chile. E, embora não esteja oficialmente na nossa projeção, vimos uma mudança de tom no banco central chileno se tornando mais “hawkish”. No seu último relatório de inflação, publicado recentemente, a instituição adiantou que pode subir a taxa de juros em 200 pontos-base entre este ano e o ano que vem”.
Hoje, a taxa de juros no Chile está em 0,50% ao ano, contudo, em seu último relatório mensal de junho, o banco central do país previu a inflação e 3,2% no fim de 2021 e crescimento a 6% este ano no mínimo, o que fortaleceu as apostas do mercado para um aperto monetário em breve.
“Depois [do Chile], o México é uma boa aposta, embora esteja prevista uma mudança no comando do banco central no fim do ano e não se saiba muito bem se o atual presidente irá fazê-lo ou deixar para o seu sucessor”, conclui Revilla.
No México, o Banxico (BC do país) saiu de um cenário em que se debatiam novas quedas de juros para entrar em outro em que elevá-los antes do fim do ano ganha força no mercado, com foco na dinâmica negativa dos núcleos de inflação (que excluem preços voláteis). Enquanto isso, a depreciação cambial na Colômbia é o grande risco inflacionário em um contexto de déficit fiscal e dificuldade de reformar as contas públicas.
Com esse pano de fundo, o Itaú Unibanco é uma das instituições financeiras que passaram a projetar um ciclo de normalização das taxas disseminado pela região. Considerando o “ambiente mais benigno para o crescimento e pressões inflacionárias mais intensas”, os BCs latino-americanos “devem começar a subir as taxas de juros em breve”, informou o banco, em relatório recente. Entre outras casas que passaram a ver altas de juros mais espalhada pela região ainda, estão também a consultoria britânica TS Lombard e a empresa britânica de análise, a Economist Intelligence Unit (EIU).
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Felipe Saturnino e Rafael Vázquez, Valor — São Paulo, 20/06/2021

