Quando decidiu ingressar na equipe do governo federal no início do ano, Gustavo Montezano surpreendeu os amigos. Depois de uma década no banco BTG Pactual e há três anos morando em Londres, o engenheiro mecânico queria voltar ao país e aceitou encarar o desafio público. Aos amigos argumentou que com um "sponsor" (um apoiador, traduzindo o termo que usou) como José Salim Mattar, se era para estar no governo, a hora era esta.
Vinte anos mais novo que Joaquim Levy e sem histórico público anterior, Montezano assumirá a presidência do BNDES contando não só com uma dose de boa vontade do governo para sua nova jornada, mas também com um bocado de pressão, avaliam executivos.
Seu pai, Roberto, é professor de finanças no Ibmec, escola que tem Paulo Guedes, ministro da Economia, entre os fundadores. Há um alinhamento com o ministro e Montezano conta com sua simpatia, mas a proximidade é com Salim Mattar, secretário de Privatizações - com quem teve interações no BTG sobre a Localiza, da família Mattar. Montezano virou secretário-adjunto de Desestatização no início deste ano, sob comando de Mattar.
"Tive poucas interações com ele, mas a impressão foi positiva, alinhado a Salim", diz um diretor de banco. Foi de Mattar a indicação de Montezano a Guedes para o BNDES. O nome foi bem recebido pelo presidente Jair Bolsonaro, que foi vizinho dos Montezano no Rio. Gustavo é amigo de um dos filhos do presidente, Eduardo. Bolsonaro também gostou do currículo: Montezano se formou no Instituto Militar de Engenharia.
No BTG, passou por várias áreas em 11 anos. Na fase final, estava à frente do crédito corporativo. Foi um dos responsáveis pela reestruturação da Eneva, empresa de energia criada como MPX por Eike Batista, da qual os bancos se tornaram acionistas após uma conversão de dívida.
A reestruturação da dívida de mais de R$ 6 bilhões era complexa, envolvendo o BTG, bancos privados, a empresa alemã E.ON e Eike. "Os caras de crédito normalmente são mais frios e matemáticos na negociação, mas Montezano sabe se colocar nos sapatos do outro", diz um executivo próximo. "Ele é negociador e sabe chegar ao meio-termo, mesmo em contexto de alta tensão."
A experiência deu destaque ao executivo, que foi escalado com um grupo de sócios para assumir a empresa de commodities no exterior, que acabara de ser cindida, rebatizada de Engelhart. "Essa operação tinha virado um problema porque era complexa e começava a perder dinheiro", conta um executivo. "O banco queria executivos competentes e leais in loco."
Montezano queria morar no exterior e topou a mudança para Londres. Segundo um amigo, ele estava recém-separado e foi nessa fase pré-Londres que foi processado por vizinhos por prolongar festas em um prédio na zona oeste paulistana - em que Eduardo Bolsonaro era um dos convidados. "O Gustavo é um cara normal, que aproveita cada fase da vida. É família, muito presente na vida da filha", diz um amigo.
Se sua habilidade negocial e dedicação são pontos fortes, a pouca experiência pública é ponto fraco, para executivos ouvidos pelo Valor. "Ele não tem casca para o jogo político que o BNDES acaba sendo envolvido", diz o diretor de banco. "Bolsonaro insiste em uma caixa-preta que parece não existir, como lidar?", diz.
Fonte ligada ao Ministério da Economia minimiza a questão. "O ritmo do BNDES em desinvestimentos incomodou. Se ele der andamento a isso, o presidente ficará satisfeito e essa história de caixa-preta é secundária", avalia. Mas a fonte admite que Montezano terá que usar sua habilidade negocial com a própria equipe e, eventualmente, fazer demissões específicas para demonstrar alinhamento. Sobre a falta de experiência, rebate: "Para este governo, não ter histórico público é melhor do que ter histórico em governo do PT".
Para bancos de investimento, a velocidade de desinvestimentos em empresas abertas deve crescer no curto prazo. Montezano não retornou o pedido de entrevista do Valor.
Fonte: Valor - Brasil, por Maria Luíza Filgueiras - de São Paulo, 19/06/2019

