Antes da pandemia, em 2019, a indústria da construção conseguiu ampliar o pessoal ocupado após cinco anos seguidos de queda. O número de trabalhadores do setor avançou de 1,871 milhão em 2018 para 1,903 milhão em 2019, um salto de 1,7% (32.472). Na passagem entre 2018 e 2019 também aumentou o número de empresas ativas do setor – de 124.586 para 125.067. A variação foi de apenas 0,38%, mas foi a primeira alta após três recuos seguidos, movimento puxado principalmente pelas companhias menores (com 1 a 4 empregados).

Os dados são da Pesquisa Anual da Indústria da Construção (Paic) 2019, divulgada nesta quinta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Naquele ano, a indústria da construção cresceu 1,5%, considerando o resultado contabilizado pelo Produto Interno Bruno (PIB), a primeira taxa positiva após cinco negativas. Em 2020, o setor registrou queda de 7% sob o impacto da pandemia, segundo o dado das Contas Nacionais Trimestrais. As pesquisas são diferentes, mas o movimento observado no ano passado indica que a reação da indústria pode ter tido fôlego curto.

Entre os três segmentos da construção acompanhados pela PAIC – construção de edifícios, obras de infraestrutura e serviços especializados para a construção -, foi o último o maior impulsionador de vagas na indústria em 2019. O segmento – com empresas especializadas como hidráulica, elétrica ou preparação de terreno, por exemplo - avançou em 58.089 o número de trabalhadores, para 672.774, uma alta de 9,5%. Enquanto isso, houve queda de 6,1% em construção de edifícios, para 665.056 trabalhadores. Em obras de infraestrutura, o aumento foi de 3,1%, para 565.885.

 

“Nossa pesquisa mostrava uma queda contínua de pessoal ocupado nos últimos cinco anos na construção e 2019 trouxe uma recuperação, puxada principalmente pelos serviços especializados para a construção. É o setor que também menos tinha sofrido nos anos anteriores”, explica Marcelo Miranda, analista da PAIC 2019.

 

A massa salarial dos trabalhadores da construção teve aumento real de 2,7% na passagem de 2018 para 2019, para R$ 56,8 bilhões. Em 2018, tinha sido de R$ 55,3 bilhões (valor deflacionado). O movimento reflete o aumento de trabalhadores, já que o salário médio mensal ficou estável em 2,3 salários mínimos no período.

Ao analisar o desempenho da década, no entanto, a indústria da construção ainda acumula perda de meio milhão de trabalhadores (554,1 mil), ou 22,5%, segundo a PAIC 2019. A pesquisa contabiliza os empregos formais do setor e não considera, portanto, o trabalho informal de pedreiros e pintores responsáveis por pequenos serviços. O ponto mais alto da ocupação no setor na década passada foi registrado em 2013, com 2,968 milhões de trabalhadores. De 2013 a 2018, a perda de postos de trabalho chegou a 37% (menos 1,097 milhão). O resultado reflete uma combinação da crise econômica e com os desdobramentos da operação Lava-Jato, que atingiu em cheio as grandes empresas do setor.

O aumento no número de empresas ativas registrado em 2019, frente a 2018, foi puxado principalmente por aquelas de menor porte, com um a quatro empregados. No resultado total, houve aumento de 481 novas empresas. Mas o comportamento foi diferente de acordo com o porte da empresa: aumento entre aquelas com contingente entre um e quatro empregados – 522 a mais, para 69.512 – e nas de cinco a 29 trabalhadores – 19 a mais, para 45.821 – e queda nas companhias com 30 ou mais trabalhadores – 60 a menos, para 9.734.

O movimento pode ser observado também através do número médio de pessoas ocupadas nas empresas de construção, que caiu de 32, em 2010, para 15, em 2019. Essa média caiu para todos os segmentos, com intensidade maior em obras de infraestrutura (81 para 43).

“Houve um movimento de redução do porte das empresas. Isso pode ser explicado porque empresas grandes diminuíram o quadro de pessoal e também pelo aumento das empresas de porte menor", diz Miranda.

Em dez anos, no período entre 2010 e 2019, o aumento no número de empresas foi de 61,4%. Em 2019, os serviços especializados em construção se tornaram o segmento mais representativo em pessoal ocupado, com 35,3% do total, ultrapassando a parcela dos trabalhadores na área de construção de edifícios.

A mudança no perfil das empresas levou a uma redução na concentração dos negócios nas grandes companhias. Em 2010, as oito maiores empresas da indústria da construção concentravam 11,1% do valor de incorporações, obras e/ou serviços do setor. A parcela caiu pela metade, para 5,1% em 2019. Essa desconcentração ocorreu de forma mais intensa no segmento de obras de infraestrutura: essas mesmas companhias viram sua participação recuar de 25,2% em 2010 para 11,9% em 2019.

— Foto: Josue Isai Ramos Figueroa/Unsplash


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Lucianne Carneiro, Valor — Rio, 17/06/2021