Depois de um primeiro trimestre fraco, economistas avaliam que a queda da produção industrial e o ritmo morno das vendas do varejo devem manter, em abril, a atividade num quadro de pouco fôlego. O cenário desanimador para o segundo trimestre do ano vai, assim, se desenhando, já que os primeiros dados de maio sinalizam piora no desempenho da indústria. Diante disso, alguns analistas já esperam recuo para o Produto Interno Bruto (PIB) entre abril e junho, depois da alta modesta, de apenas 0,2%, nos primeiros três meses do ano - dado que ainda pode ser revisto para baixo pelo IBGE.

A média de 19 instituições financeiras e consultorias ouvidas pelo Valor Data aponta que o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) ficou estável na passagem de março para abril, descontados os efeitos sazonais, após ter cedido 0,11% na comparação anterior. As estimativas para o indicador da autoridade monetária, que funciona como um termômetro do PIB, a ser divulgado hoje pelo BC, vão de retração de 1,7% até aumento de 0,4%.

Segundo Rafael Bacciotti, da Tendências Consultoria, o comportamento ruim da produção - que encolheu 0,3% na passagem mensal -- e a alta de 0,6% do volume de vendas do varejo ampliado indicam que o IBC-Br caiu 0,1% em abril. Bacciotti afirma que, se confirmado, o dado representará uma redução moderada do nível de atividade econômica, mas vai reforçar a percepção de fraqueza permanente. "Temos visto resultados fracos desde fevereiro e, ao que parece, essa dinâmica permaneceu em maio", diz, referindo-se a indicadores antecedentes negativos para o setor industrial.

Nos cálculos dessazonalizados pela consultoria, o consumo industrial de energia elétrica diminuiu 3,3% em maio ante abril, enquanto a expedição de papelão ondulado, que antecipa a produção de embalagens, recuou 1,1%. Já o fluxo pedagiado de veículos pesados nas estradas, medido pela Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR) em parceria com a Tendências, ficou 0,6% menor, e a produção de automóveis encolheu 3%. Esse último índice é calculado a partir de dados da Anfavea, entidade que reúne as montadoras instaladas no país. Com base nesses números, Bacciotti projeta recuo de 0,9% para a produção no mês passado.

Para o economista da Tendências, a atividade industrial seguirá debilitada nos próximos meses devido principalmente à influência negativa do setor automobilístico, que tem sofrido com a desaceleração das vendas no mercado interno e a retração das exportações para parceiros importantes, com destaque para a Argentina. O excessivo acúmulo de estoques e os anúncios de férias coletivas e programas de demissões voluntárias por parte das montadoras indicam que essa situação não melhorou, mesmo após o avanço de 5,4% do comércio de veículos, motos, partes e peças em abril, avalia Bacciotti.

O Itaú Unibanco estima que o IBC-Br subiu 0,3% sobre março, mas trabalha com retração de 0,2% do PIB na passagem do primeiro para o segundo trimestre. Na avaliação dos economistas do banco, os resultados das contas nacionais de janeiro a março e os indicadores já conhecidos de abril e maio mostram perda de vigor da demanda doméstica, movimento condizente com recuo do PIB no segundo trimestre.

Dependendo da intensidade desta queda, é possível que o crescimento dos primeiros três meses do ano seja reduzido para um número negativo, após a revisão de seu ajuste sazonal, dizem os analistas do Itaú. "Desta forma, teríamos dois trimestres consecutivos de queda do PIB", o que configura uma recessão técnica.

O banco destaca que a perda de confiança em diferentes setores da economia também é indício de arrefecimento da atividade nos próximos meses, ainda que parte do mau humor dos empresários possa ser creditado às expectativas de menos dias úteis em função da Copa do Mundo. Em maio, segundo os indicadores calculados pela Fundação Getulio Vargas (FGV), a confiança da indústria, dos serviços e dos consumidores caiu 5,1%, 5,7% e 3,3%, respectivamente. Já o indicador da construção civil diminuiu 9,8% nos três meses encerrados em maio, na comparação com o mesmo período de 2013, ao passo que a confiança do comércio recuou 4,4% em igual ordem.

Por enquanto, a Tendências trabalha com expansão de 0,2% para o PIB no segundo trimestre, mas Bacciotti não descarta um número negativo, tendo em vista a deterioração do nível de atividade industrial. Após a divulgação dos resultados do primeiro trimestre, a consultoria cortou sua projeção para o crescimento em 2014, de 1,8% para 1,3%. "Mas com esse possível viés de baixa do segundo trimestre, é possível que a economia fraqueje ainda mais", afirma o economista.


Fonte: Valor, por Arícia Martins, 13/06/2014