Surpresas positivas na atividade econômica e pressões inflacionárias cada vez mais fortes no curto prazo consolidaram um cenário ainda mais agressivo quanto ao processo de normalização da política monetária. Não por acaso, o mercado correu para ajustar apostas em relação ao nível da Selic e cada vez mais agentes projetam que a taxa básica de juros encerrará o ano em 6% ou mais.
Em levantamento realizado pelo Valor com 104 instituições financeiras e consultorias entre segunda-feira e quinta-feira, apenas 30 esperam que a Selic termine o ano abaixo de 6%, enquanto 74 acreditam que a taxa chegará ao fim de dezembro entre 6% e 7%. Para efeito comparativo, na pesquisa realizada com 98 casas antes da reunião de maio do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, somente 20 esperavam que o juro básico chegasse a pelo menos 6% no ano.
Já a decisão do Copom de semana que vem não deve trazer muitas surpresas. Depois de o colegiado já ter telegrafado que pretende efetuar uma nova elevação de 0,75 ponto percentual na Selic, o mercado acredita que a autoridade monetária irá seguir à risca o script e, das 104 instituições consultadas, 103 esperam que a Selic seja elevada dos atuais 3,5% para 4,25% na semana que vem. Somente uma casa espera um aumento maior.
Apesar do recente desempenho melhor do câmbio, vetores inflacionários externos e internos, que resultam em uma inflação corrente mais forte e na alta das expectativas, são fatores que devem levar o Copom a elevar a Selic para 4,25% na semana que vem e a sinalizar uma nova alta de 0,75 ponto em agosto, na avaliação de Tatiana Pinheiro, sócia e economista-chefe da Panamby Capital.
“É verdade que os preços de commodities em real caíram um pouco, e muito mais por causa da apreciação do câmbio que por um recuo relevante das matérias-primas, mas ainda estamos falando de um dólar perto de R$ 5 - um nível historicamente alto que tende a pressionar a inflação”, explica. “Avaliamos, assim, que não há espaço para o BC reduzir o ritmo de elevações da Selic.”
Hoje, a Panamby projeta que a Selic encerrará 2021 a 6,5%, em trajetória que implica duas elevações de 0,75 ponto e, por fim, mais três de 0,5 ponto, o que significa uma normalização total da Selic. “Dado que o cenário de inflação está pressionado, faz sentido realizar o ajuste completo neste ano para minimizar a possibilidade de desancoragem da inflação do ano que vem”, diz a economista.
A deterioração do cenário inflacionário no curto prazo e a contaminação das expectativas de inflação de 2022 - que já estão em 3,70% no Boletim Focus - são algumas das justificativas usadas para que o Copom seja agressivo no processo de elevação dos juros. O próprio colegiado se surpreendeu com o cenário inflacionário de curto prazo. Divulgado na quarta-feira, o IPCA acumulou alta de 8,06% nos 12 meses até maio. Considerando as projeções do Copom para o IPCA divulgadas no Relatório de Inflação (RI) de março, houve uma surpresa inflacionária de 0,36 ponto.
Para a economista-chefe da Canvas Capital, Camila de Faria Lima, a política monetária tem um papel “super importante” para fazer com que não haja efeitos de segunda ordem nas expectativas. “Como o horizonte relevante para o BC é 2022 e as projeções estão subindo, mas de forma muito mais gradual quando se compara com as expectativas de 2021, existe uma discussão sobre desancoragem. Isso para mim não é desancoragem. Não acho que seja uma perda de controle.”
A Canvas trabalha com IPCA um pouco abaixo de 4% em 2022. “É um cenário complicado, mas não é uma perda de controle”, diz Camila. “Os IGPs estão subindo 40%. Quando eu penso nessa magnitude de alta, acho que a inflação ao consumidor está até bem comportada. Seria algo natural ter uma inflação um pouco acima de 3,5% no ano que vem dada a magnitude dos choques”, afirma. Para ela, porém, “a essa altura, não dá mais para falar em inflação temporária”.
Na pesquisa realizada nesta semana, o Valor também levantou as projeções dos analistas para o IPCA neste ano e em 2022, já que o horizonte relevante da política monetária abarca, no momento, somente o próximo ano. Assim como no Focus, também foi captado um maior distanciamento das expectativas de inflação de 2022 em relação ao centro da meta. Na pesquisa feita antes do Copom de maio, 54% das instituições projetavam o IPCA acima de 3,5% em 2022. Agora, 78% dos entrevistados têm expectativas de inflação mais altas que 3,5%.
Nesse contexto, analistas devem observar com ainda mais atenção a comunicação do Copom. Um ponto específico é alvo de debates intensos entre economistas: se o colegiado irá manter ou retirar a indicação de que seu cenário contempla uma normalização parcial da política monetária, ou seja, que poderia manter a taxa de juros no campo estimulativo neste ano.
A economista Eduarda Korzenowski, da Somma Investimentos, defende a visão de que o Copom irá retirar a indicação de ajuste parcial da Selic. “Apesar de as expectativas de inflação de 2022 ainda estarem ancoradas, vemos as projeções de 2021 sendo revisadas constantemente. Além disso, a atividade mais acelerada que o inicialmente previsto, o cenário hídrico adverso e o elevado preço das commodities devem continuar pressionando o indicador ao longo do ano”, afirma. A Somma acredita que o Copom terá de ajustar a Selic mais rapidamente e levará a taxa para 6,5%.
O economista-chefe do banco BV, Roberto Padovani, também se inclui nesse grupo, ao acreditar que o BC não irá fazer uma pausa no processo de elevação de juros. “A economia está bastante forte e a retomada está sendo robusta. Os dados de varejo desta semana mostram isso”, diz. Padovani lembra que, apesar da valorização recente do câmbio, há um cenário de pressão sobre o dólar mais à frente.
Assim, na avaliação do economista, o viés é que os juros encerrem o ano em 6,25% e que o atual ciclo termine na primeira reunião do Copom de 2022, quando a Selic seria elevada para 6,5%. No cenário do BV, a inflação terminará este ano em 5,5% e chegará ao fim de 2022 em 3,6%. “E acreditamos que a inflação ficará controlada no ano que vem porque o BC irá colocar a taxa de juros no nível neutro, o que deve moderar o crescimento e a inflação”, afirma Padovani.
Uma segunda corrente é a dos economistas que esperam a manutenção da indicação de ajuste parcial. É o caso do economista-chefe para América Latina do Morgan Stanley, André Loes, que diz acreditar que o modelo do BC deve continuar mostrando uma inflação abaixo do centro da meta. No Copom de maio, a projeção do IPCA de 2022 do BC estava em 3,4%.
“O modelo do BC até pode incorporar bandeira vermelha, mas também leva em conta outras coisas. Houve uma apreciação do câmbio relevante desde a última reunião, de cerca de 7%, e ele deve levar isso em conta, além de dar um viés de baixa para a inflação do ano que vem”, diz Loes. Ele lembra que, no RI de setembro, o BC trouxe um boxe que revelou que, para cada 10% de depreciação do dólar, há um efeito de 0,70 ponto na inflação. “De alguma forma, isso compensa a alta de administrados.”
Já para Marcelo Ferman, sócio da Parcitas, cuja projeção aponta para a Selic em 5,5% no fim do ano, o Copom pode flexibilizar adicionalmente a sinalização de ajuste parcial. “Acreditamos que a indicação de ‘ajuste parcial’ permanecerá na comunicação, mas deve vir um pouco enfraquecida”, afirma. Como exemplo, Ferman diz que o colegiado pode apontar que ainda antevê um ajuste parcial, mas que a chance de se fazer uma normalização total tem aumentado.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Victor Rezende e Felipe Saturnino — De São Paulo, 11/06/2021

