O futuro embaixador do Brasil em Buenos Aires, Sérgio Danese, alertou  ontem sobre o risco de perda de mercado para as empreiteiras brasileiras na Argentina. Segundo ele, as construtoras nacionais participam atualmente de 11 projetos de infraestrutura no país vizinho, mas dificuldades de financiamento podem levar à ocupação do espaço por concorrentes de outras
partes do mundo ­ como europeus e até chineses.

Dados oficiais comprovam como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), em meio à Operação Lava­Jato, enxugou os recursos disponíveis para a exportação de serviços de engenharia. Principal fonte de financiamento às obras tocadas por construtoras brasileiras no exterior, o BNDES vem diminuindo o volume de desembolsos liberados de US$ 1,3 bilhão em 2013 para US$ 982 milhões em 2014. No ano passado, houve novo recuo: saíram US$ 528 milhões dos cofres do banco. Esse valor  se refere não só à Argentina, mas a operações globais.

O Valor apurou, com uma grande empreiteira, que nenhum desembolso é feito desde outubro. De acordo com fontes do setor, o BNDES teria feito uma nova consulta à Advocacia­Geral da União (AGU) ­ supostamente ainda sem resposta ­ sobre a possibilidade de continuar liberando crédito para empresas diretamente envolvidas na Lava­Jato. Enquanto isso, outros países têm feito uma ofensiva na América do Sul. No caso da Argentina, especificamente, a bem­sucedida negociação com os "holdouts" permitiu ao governo tomar novos empréstimos no mercado internacional. Com juros menores, o sistema de proteção de crédito do BNDES torna­se um diferencial menos importante e a competitividade das construtoras brasileiras tende a diminuir.

"Com essa volta da Argentina ao mundo, digamos assim, as empresas brasileiras que competem no país com grande vantagem sofrerão uma concorrência mais acentuada", afirmou Danese, em sabatina na Comissão de Relações Exteriores (CRE) do Senado. "Teremos que resolver uma questão de como financiar a nossa relação comercial e econômica com aquele país. Se não equacionarmos isso adequadamente, vamos perder muito espaço para países que têm mecanismos de financiamento muito poderosos, como China e Rússia, mas sobretudo Estados Unidos e países europeus", disse o embaixador.

O ex­ministro do Desenvolvimento e senador Armando Monteiro (PTB­PE) endossou o receio: "Temos verificado, com preocupação, que o processo envolvendo a Lava­Jato e seus desdobramentos terminou por produzir, até no debate, a ideia de criminalizar o  financiamento das exportações de serviços, especialmente na área de engenharia. O Brasil não pode perder sua presença na América do Sul e na América Central".

Em fevereiro, o ministro argentino da Fazenda, Alfonso Prat­Gay, incluiu o financiamento a obras de infraestrutura nas conversas que teve em Brasília. Após reuniões com o governo brasileiro, ele disse na ocasião que um dos objetivos da visita era acelerar a liberação de empréstimos aprovados da ordem de US$ 7 bilhões. "Temos uma lista de projetos pré­aprovada com o BNDES e a intenção é que comece a ser liberada", comentou Prat­Gay.

A participação das brasileiras na Argentina engloba projetos como o soterramento da linha ferroviária Sarmiento, o emissário subterrâneo de Berazategui, o gasoduto de Córdoba, o açude do Rio Salado, a construção da hidrelétrica Los Blancos e a ampliação da rede de transmissão de energia na Província de Buenos Aires. Danese, ex­secretário­geral do Itamaraty, foi aprovado na CRE por 15 votos a zero. A indicação ainda precisa ser avalizada pelo plenário do Senado, mas as chances de rejeição são consideradas inexpressivas. Autor de um livro de referência sobre diplomacia presidencial, Danese já chefiou a representação diplomática na Argélia e foi assessor parlamentar do Itamaraty no Congresso.

Valor - Brasil, por Daniel Rittner


Fonte: APeMEC, 10/06/2016