O legado da Copa em São Paulo está concentrado na zona leste da capital, área que abriga 34% da população, responde por menos de 25% da oferta de emprego e tem a menor renda per capita da metrópole. O bairro de Itaquera, onde moram 220 mil pessoas, recebeu estádio, obras viárias e um polo com equipamentos públicos, como escola e hospital.
Segundo a prefeitura, essas obras estavam previstas pelos governos municipal, estadual e federal há mais de dez anos em uma agenda voltada para atenuar o perfil de "cidade-dormitório" do bairro, com incentivos fiscais a empresas para gerar empregos locais.
A oportunidade de usar a Copa para catalisar esse movimento surgiu quando o estádio Cícero Pompeu de Toledo - originalmente apontado como palco do Mundial na cidade - foi recusado pela Fifa. Com a exclusão, a construção do monotrilho Linha 17-Ouro, que iria até a região, foi tirado da Matriz de Responsabilidades (programação de obras para o evento).
Itaquera virou alvo de investimentos. A construção do sistema viário e do polo institucional custou R$ 548,5 milhões. E a ampliação do terminal urbano, R$ 29,8 milhões. A Arena Corinthians, mais conhecida como Itaquerão, teve R$ 400 milhões financiados pelo BNDES e R$ 420 milhões pela prefeitura, por meio da emissão de títulos de renúncia fiscal. Mas o valor inicialmente previsto, de R$ 820 milhões, deve chegar a R$ 1,2 bilhão, com mais R$ 350 milhões financiados pela Caixa Econômica Federal. Durante a construção do estádio, dois acidentes mataram três trabalhadores.
Além das obras viárias e da política de estímulo para a zona leste, São Paulo herda com a Copa a ampliação da infraestrutura aeroportuária. O novo terminal internacional de Guarulhos começou a funcionar em maio com capacidade para 12 milhões de pessoas por ano, na primeira fase. A concessionária Aeroporto Internacional de Guarulhos (formada por Invepar e a Airports Company South Africa) dobrou o número de vagas de estacionamento e quase duplicou a capacidade de aeronaves no pátio.
Já parte das reformas em Viracopos, em Campinas (SP), ficarão prontas só em outubro. A Aeroportos Brasil - concessionária do aeroporto, controlada pela Triunfo Participações e Investimentos (TPI) e pela UTC Participações - não concluiu as obras até o prazo encerrado em 11 de maio, ficando sujeita a multa de R$ 170 milhões.
No Rio de Janeiro, a única obra a cargo da prefeitura na Matriz de Responsabilidade da Copa, a construção da linha expressa de ônibus BRT Transoeste, pouco deve servir aos moradores e turistas interessados em acompanhar o Mundial. Com um investimento de R$ 1,6 bilhão, o corredor deve reduzir em 60% o tempo de percurso entre a Barra e o aeroporto, aponta a prefeitura.
Mas a via não será usada pela maioria dos turistas, porque 60% dos quartos de hotel estão concentrados em Copacabana, na zona sul. Sozinha, a linha expressa também não servirá a quem for ao Maracanã. Os passageiros precisarão fazer uma baldeação para o metrô. E embora 76% dos torcedores devam ir ao estádio de metrô, o modal não recebeu investimentos. A extensão para a Barra da Tijuca é prevista apenas para a Olimpíada de 2016.
Os Jogos Olímpicos aparecem como um trunfo para o poder público no Rio, que estendeu para 2016 o prazo para construir um novo terminal de passageiros e a reforma da região portuária, um projeto estimado em 2013 em R$ 91 milhões, inicialmente previsto para a Copa. O Maracanã, reformado por R$ 1,2 bilhão para a Copa, e seu entorno devem sofrer novas intervenções para a Olimpíada.
Fonte: Valor, por Letícia Casado e Guilherme Serodio, 09/06/2014

