O Brasil vive hoje uma sindemia, conceito definido pelo acúmulo das crises sanitária, econômica e social trazidas pela pandemia de covid-19. Além desse estágio com desdobramentos mais duradouros sobretudo para a população mais vulnerável — pretos, pardos, mulheres e idosos —, a chamada terceira onda do novo coronavírus é tida como certa, afirmaram especialistas em saúde e gerontologia durante participação na Live do Valor desta segunda-feira.

Brasil acumula crises sanitária, econômica e social, dizem gerontólogos

“É uma pandemia que se faz acompanhar de várias crises, como os sintomas e sinais que definem uma síndrome gripal”, comparou Alexandre Kalache, gerontólogo, ex-diretor da OMC e presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil. “Mesmo antes da pandemia, já acontecia uma crise política, basta lembrarmos as últimas eleições. Observamos também o aumento de desempregados, o aumento das pessoas desalentadas, uma desconstrução sanitária com o SUS sendo sistematicamente ameaçado, além de conflitos sociais e raciais”, observa Alexandre da Silva, pesquisador e doutor em saúde pública pela USP.

Desde a eclosão da pandemia, recorda Kalache, já se sabia que no Brasil o novo coronavírus atingiria com mais intensidade os jovens, porque temos mais comorbidades; a população negra, pela desigualdade social; e as mulheres, muitas já no mercado informal e as primeiras a perder emprego.

Para Alexandre da Silva, também ficaram evidentes práticas discriminatórias contra a população mais velha. “Já existia uma discriminação contra a pessoa idosa e ela foi influenciada pelos gestores públicos que começaram a verbalizar mais que o idoso representa um ‘risco’”, disse

O pesquisador da USP defende um pacto nacional englobando educação e saúde para garantir a sobrevivência das camadas mais vulneráveis. “As pessoas que estão mais velhas hoje vão ter uma situação de vida frágil, seja pela falta de familiares que morreram, seja pela falta de emprego”, afirma Silva, lembrando também que os jovens, hoje longe das escolas, também terão mais dificuldades à frente.

Nesse contexto, o prolongamento da pandemia preocupa. “Creio que já estamos na terceira onda, pela vacinação lenta, falta de observação do distanciamento físico e de uso de máscara e higiene. São exemplos que chegam de cima e estão impedindo o controle da doença”, destaca Kalache.

Na semana passada, o presidente Jair Bolsonaro fez pronunciamento em rede nacional, em que prometeu vacinar toda a população brasileira até o fim deste ano. “Estamos correndo atrás de um prejuízo que foi dado há um ano”, disse Kalache, em referência à falta de resposta do governo federal para compra de imunizantes, como o da Pfizer. Um dos efeitos, ele acrescenta, é o do rejuvenescimento das contaminações por covid-19, conforme mostrou estudo recente da Fiocruz. “Estamos permitindo que as variantes mais contagiosas se disseminem, criou-se um mito de que a covid só tinha implicações para as pessoas mais velhas”, disse.

Segundo Kalache, já é possível traçar hoje uma piora da expectativa de vida da população em meio à sobreposição de crises. “Mas para quem mora em bairros de elite, essa piora se reduz a menos de um ano. Já nas periferias, quilombos e rincões do Brasil, o impacto será de mais de três anos”, disse. Ele alerta para as sequelas deixadas pela pandemia no aspecto emocional da população e também em questões físicas, ponto também levantado por Silva. “Vamos ter de conviver muitos anos com a covid e pensar não só em vacina, mas em diversos pessoas que tiveram desfechos neurológicos e musculares a partir da covid, por exemplo. Nem começamos a tratar com dignidade essas pessoas ainda, meu receio é naturalizar outras situações de doença”, diz o pesquisador da USP.

De uma perspectiva mais otimista, Kalache diz que ainda há tempo para controlar a crise sanitária. “Como estamos ‘caprichando’ no controle da pandemia, o coronavírus deve continuar circulando no futuro. Mas ainda não é tarde, vamos ter de nos preparar para ter de vacinar a população todos os anos. Esse otimismo vai depender de ações concretas, com respeito à ciência”, afirmou.

A live, mediada pela repórter Leila Souza Lima, pode ser assistida na íntegra pelo site e pelos canais do Valor no YouTube e no LinkedIn.


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Hugo Passarelli, Valor — São Paulo, 07/06/2021