A ata do Comitê de Política Monetária (Copom) reiterou pontos já tratados pelo Banco Central na semana passada, mas soou ligeiramente "dovish", ou seja, pró­ queda dos juros, em relação ao comunicado da decisão de política monetária. Com isso, o BC mantém viva a possibilidade de repetição de corte de um ponto percentual na taxa Selic no encontro de julho, segundo analistas.

Uma evidência disso veio do mercado de juros futuros da B3. As taxas dos contratos mais correlacionados às decisões de política monetária sofreram a maior queda em 11 dias. E a diferença entre os juros projetados para janeiro de 2019 e janeiro de 2018 caiu pela metade, saindo de 16 pontos-­base na segunda-­feira para 7 pontos ontem. A queda de 9 pontos foi a mais intensa em duas semanas. Na prática, o alívio na inclinação mostra que o mercado vê maiores chances, pelo menos, de estabilidade da Selic ao longo de 2018. Recentemente, a curva de juros chegou a embutir mais de 100 pontos­-base de alta da taxa básica no próximo ano.

Para alguns profissionais, a ata do Copom pareceu uma tentativa do Banco Central de garantir mais flexibilidade às decisões de política monetária. O motivo seria justamente o cenário de incerteza, que, de acordo com o comitê, recomendava na semana passada "não conjecturar sobre possível ritmo a ser adotado no futuro".

No parágrafo 19 da ata, o Copom deixa claro que as condições atuais dão espaço para a continuidade do processo de distensão monetária e que esse entendimento já leva em conta os riscos ao cenário-­base e às estimativas de extensão do ciclo.

Um pouco depois, no parágrafo 22 da ata, os membros afirmam considerar "adequada" uma redução "moderada" do ritmo de queda dos juros. Mas ressaltam que esse ritmo continuará dependendo da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos, de possíveis reavaliações da estimativa para a extensão do ciclo e das projeções e expectativas de inflação. 

O Citi Brasil viu no texto um reforço a sua estimativa de corte de 1 ponto percentual da Selic no encontro do Copom dos dias 25 e 26 de julho.

Analistas do banco justificam essa leitura a partir da expectativa de que os indicadores econômicos ­ inflação e atividade ­ permaneçam inclinados para o lado "dovish". "O Relatório Trimestral de Inflação, a ser publicado no fim deste mês, é um sinal importante que poderia fornecer uma melhor avaliação  da visão dos dirigentes sobre os impactos da atual turbulência política na função de reação da política monetária", destaca os  profissionais do Citi.

Na mesma linha, o Bank of America Merrill Lynch (BofA) chama atenção para as avaliações do Copom sobre a atividade econômica. O BofA aponta que o colegiado do BC reiterou que as incertezas sobre as reformas podem ter impactos negativos sobre a atividade, com a economia operando com baixa utilização da capacidade instalada e desemprego elevado.

"Embora um corte de 0,75 ponto percentual seja o mais provável em julho, a ata deu mais flexibilidade no caso de o BC querer manter o atual ritmo de redução do juro", afirma o BofA, referindo­-se ao declínio de um ponto da Selic promovido na semana passada.

O economista-­chefe da Garde Asset Management, Daniel Weeks, avalia que se comprometer com um corte de 0,75 ponto em julho pareceu uma reação "exagerada" do BC. Segundo Weeks, apesar da discussão de impactos sobre o juro neutro vindos de atrasos ou não aprovação da reforma da Previdência, os fundamentos de atividade e inflação sugerem um extenso ciclo de alívio monetário. "Estamos incorporando efeitos desinflacionários de atividade mais fraca. E o câmbio está ancorado em R$ 3,30", diz o economista. Ele prevê, enfraquecimento do PIB no segundo trimestre. "Com tudo isso na conta, o BC vai ver que não tem motivo para ser tão conservador."

De forma geral, analistas ainda têm evitado mudar drasticamente as expectativas para atividade econômica e inflação. Pela mediana das projeções do relatório Focus, o mercado reduziu a variação esperada para o PIB em 2018 de 2,5% no dia 16 de maio ­ antes do estouro da crise política ­ para
2,4% no fim da semana passada, último dado..

No mesmo intervalo, o prognóstico para o IPCA de 2017 caiu de 3,92% para 3,90%. E a projeção para 2018 sofreu ligeira alta (de 4,37% para 4,40%), mas ainda abaixo do centro da meta, de 4,50%.

"Se a estimativa para o PIB de 2017 cair a zero e a projeção para 2018 recuar a 1,9%, por exemplo, fatalmente o modelo de curva de reação do BC vai mostrar amplo espaço para seguir cortando o juro", diz o estrategista-­chefe de investimentos e gestão da Votorantim Asset, Marcos De Callis. Ele diz que o BC deixou mais claro na ata que o aumento da incerteza impacta tanto questões estruturais ­ ou seja, a perspectiva para as reformas atrapalhando o ciclo de corte de juros ­ quanto cíclicas, como atividade e inflação. Segundo De Callis, a pressão sobre o lado cíclico ainda não foi incorporada aos cenários do Focus e pode justificar uma extensão do ciclo caso a economia sofra mais com esse "choque" e a inflação continue bem ancorada. "Um dia depois da decisão do Copom, o mercado só leu a primeira parte dessa realidade, precificou o aspecto negativo da mensagem, e agora começou a cortejar a segunda parte [cíclica], que ficou mais explícita na ata", diz o estrategista da Votorantim Asset.

Para o Bradesco, o fato de a ata ter dado destaque ao papel de fundamentos, como atividade e inflação, para as decisões futuras da política monetária pressupõe que a magnitude dos cortes e a extensão do ciclo seguirão pautados pelos desdobramentos da economia. O banco prevê que a atividade deve mostrar desaceleração nos próximos meses, reforçando a tendência desinflacionária. Isso corrobora a estimativa do banco de Selic a 8% até o fim deste ano. Ainda assim, o Bradesco diz ser mais provável que o Copom reduza o juro básico em 0,75 ponto em julho.

Em uma avaliação mais cautelosa, o Itaú Unibanco diz que uma antecipação do ciclo de flexibilização monetária não parece mais uma opção para o BC. O Itaú mantém expectativa de corte de 0,75 ponto da Selic em julho, com a taxa terminando este ano a 8%.

A Quantitas projeta Selic ainda mais alta para o fim do ano, de 9%. O cenário­-base da gestora é de desaceleração da velocidade de corte da Selic para 0,75 ponto em julho ­ chance de 75%. Revelando uma postura mais defensiva, a Quantitas vê probabilidade de 15% de o Copom optar por diminuir a Selic em apenas 0,50 ponto no próximo mês. Nos cálculos da gestora, essa chance é maior que a de manutenção do ritmo de cortes em 1 ponto (10%) ­ que só se materializaria em caso de "evolução positiva extraordinária" no ambiente político.


Fonte: Valor - Finanças, por Lucas Hirata e José de Castro, 07/06/2017