A queda da confiança e a redução das vendas dos fabricantes de tintas imobiliárias para o varejo já resultam em menor expectativa de crescimento do volume comercializado por parte das indústrias do segmento. A nova estimativa é de expansão de 1% a 1,5%, ante a projeção inicial de 3% a 3,5%, segundo o presidente da Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas (Abrafati), Antonio Carlos de Oliveira. "Temos feito ajustes mês a mês", conta Oliveira.

Até maio, o volume vendido ficou estável na comparação anual. "Estamos cautelosamente otimistas. No começo do ano, estávamos inteiramente otimistas", diz o presidente da Abrafati. Oliveira ressalta que o crescimento do setor costuma se concentrar no segundo semestre e diz esperar que a Reforma da Previdência seja aprovada em julho, o que tende a estimular a economia.

No ano passado, a Abrafati projetava que o segmento cresceria até 3%, mas as vendas ficaram praticamente estáveis, com leve alta de 0,1%. "Houve frustração das expectativas, principalmente em decorrência da greve dos caminhoneiros", diz Oliveira. Foi o segundo ano de estabilidade, considerando-se o leve aumento de 0,2% em 2017. O último ano de expansão foi 2013, com incremento de 2%, seguido por três quedas consecutivas, de 1,9%, 5% e 5,8%, respectivamente, em 2014, 2015 e 2016.

O uso de tintas imobiliárias em reformas, que respondem por dois terços do consumo do segmento, continua a puxar a demanda. Oliveira diz esperar que o aumento dos lançamentos de imóveis desde o quarto trimestre de 2018 se reverta em maior procura por tintas no próximo ano. Segundo ele, a demanda por parte do segmento de infraestrutura dependerá do ritmo de retomada das obras e do momento em que isso ocorrerá. "A partir da aprovação da Reforma da Previdência, o investimento externo vem para o Brasil naturalmente", afirma.

O mercado brasileiro de tintas imobiliárias movimenta 1,2 bilhão de litros por ano. Em 2013, no auge do consumo do produto, chegou a 1,4 bilhão de litros. No país, o consumo per capita anual é de 7,5 litros, ante o patamar de 17 a 20 litros por habitante nos países desenvolvidos. Há 2.400 fabricantes no país, quinto maior produtor mundial de tintas.

A Abrafati tem buscado estratégias para reduzir a dependência das vendas de tintas decorativas em relação ao crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), como campanhas de orientação a canais de venda e ao consumidor de que o uso da tinta correta de qualidade contribui para reduzir o prazo necessário para a realização da pintura e os desperdícios. Dados da entidade apontam que a parcela de tintas imobiliárias de qualidade corresponde, atualmente, a 90% do total, fatia que era de 50% há 17 anos. A meta é alcançar 100%, segundo Oliveira.

A revisão para baixo pela Abrafati da estimativa para 2019 está em linha com a tendência de que outras entidades também reduzam suas projeções. As mudanças são consequência de prazos mais longos do que os inicialmente esperados pelo mercado para aprovação das reformas - com destaque para a da Previdência - e para a melhora de indicadores econômicos, além das recentes revisões para o crescimento do PIB.

A Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat) tende a reduzir, neste mês, a estimativa de expansão de 2% do faturamento deflacionado do setor em 2019.

O Termômetro Abramat de maio apontou que 38% das associadas manifestaram pessimismo em relação às ações do governo, enquanto 54% disseram vê-las com indiferença. Em abril, 25% das empresas que participaram do levantamento tinham avaliação negativa das ações governamentais, e a fatia que manifestou indiferença era de 63%. A parcela das associadas que se mostrou otimista caiu de 12% para 8%.

Em relação ao faturamento de maio, 33% das empresas informaram que o resultado foi bom, 29% consideraram o mês regular e 37% disseram que o desempenho foi ruim ou muito ruim. Devido ao aumento do pessimismo, segundo a Abramat, a fatia de associados com intenção de investir em produção caiu de 83% para 62%. A parcela de 80% tinha sido atingida, no mês passado, pela primeira vez desde setembro de 2012.


Fonte: Valor-Empresas, por Chiara Quintão - de São Paulo, 05/06/2019