A onda de reduções das estimativas para o crescimento deste ano segue firme, com bancos e consultorias incorporando nas suas projeções o efeito da greve dos caminhoneiros e o resultado fraco do PIB no primeiro trimestre. O J.P. Morgan promoveu um corte extremamente significativos em sua previsão, baixando-a de 2,4% para 1,2%.

A Oxford Economics, por sua vez, diminuiu a sua de 1,9% para 1,6%, enquanto a A.C. Pastore & Associados informou que a expansão do PIB de 2018 deve ser "significativamente inferior a 2%", sem divulgar ainda uma nova projeção oficial. No Boletim Focus do Banco Central (BC) a mediana das estimativas caiu de 2,37% para 2,18%.

Para o J.P. Morgan, apenas a paralisia da atividade relacionada à greve dos caminhoneiros pode tirar 0,7 ponto percentual do avanço do PIB neste ano. "Mas nós acreditamos que ela também vai continuar a pesar sobre a confiança de empresários e consumidores, levando a uma normalização ainda mais gradual no crescimento e tornando mais desafiador o panorama eleitoral", diz o relatório da equipe comandada pela economista Cassiana Fernandez.

Ela afirma que a greve ocorreu num quadro de aperto das condições financeiras para mercados emergentes, que "afetaram particularmente o Brasil, dado os grandes desafios fiscais e a incerteza em relação à política econômica depois das eleições". Para o segundo trimestre, a estimativa é de que o PIB ficará estável em relação ao trimestre anterior, feito o ajuste sazonal - antes, a aposta era numa alta de 0,9%. Nos três primeiros meses do ano, o crescimento foi de 0,4% sobre os três meses anteriores. "E a alta dos juros futuros, também como resultado da greve, contribuiu para apertar ainda mais as condições financeiras nas últimas semanas", diz Cassiana.

Em meados de maio, o chefe de pesquisa para a América Latina da Oxford, Marcos Casarin, havia revisado o crescimento para 2018 de 2,2% para 1,9%, refletindo uma combinação de preços do petróleo mais altos, uma taxa de câmbio mais fraca e comércio menor com os principais parceiros. Com a greve dos caminhoneiros, a projeção foi novamente reduzida. Em relatório, Casarin estima que as graves perturbações nas cadeias de fornecimento e na logística, assim como o desabastecimento de combustíveis e outros bens, vão levar o PIB a recuar 0,3% no segundo trimestre. Para o ano, a consultoria baixou a projeção de 1,9% para 1,6%.

Para a consultoria do ex-presidente do BC Affonso Celso Pastore, o crescimento deste ano deverá ser "significativamente inferior a 2%", mesmo sem computar os efeitos da greve dos caminhoneiro. Segundo a empresa, não é preciso mais do que "uma avaliação rápida" sobre o comportamento dos componentes mais importantes do PIB do primeiro trimestre do lado da demanda e da oferta para chegar a essa conclusão.

O relatório observa que a expansão no primeiro trimestre do PIB, de 0,4%, deveu-se "quase que integralmente à agropecuária, com uma taxa anualizada de 6%, contrastando com a estabilidade da indústria", a queda anualizada de 2% da construção civil e um crescimento dos serviços à taxa anualizada de apenas 0,5%.

Com esse resultado, a herança estatística do primeiro trimestre para o ano ficou em 0,9%. Isso significa que, se o PIB terminar 2018 no mesmo nível registrado nos três primeiros do ano, o avanço da economia no ano será de 0,9%. Desse modo, "uma hipotética taxa de crescimento de 2% em 2018
somente seria atingida caso o PIB se elevasse a taxas anualizadas de 2,8% nos demais trimestres do ano". A questão, nota a consultoria, é que "os efeitos da greve tornam tal desempenho impossível no segundo trimestre, e não há perspectivas de melhora" nem do lado da oferta, nem do lado da demanda.

O quadro é pouco animador para o investimento, destaca a A.C. Pastore. "O baixo nível de utilização de capacidade da indústria, os níveis ainda elevados de endividamento das empresas, e as incertezas sobre se o próximo governo prosseguirá ou não na agenda de reformas não permitem vislumbrar uma retomada da formação bruta de capital fixo", diz o relatório. O cenário para o consumo das famílias tampouco é favorável. "Como temos alertado seguidas vezes, caiu o grau de formalização do emprego, desestimulando ainda mais o consumo, e os sinais vindos do mercado de trabalho ao lado do comportamento das novas concessões de crédito não sugerem recuperação." No primeiro trimestre, o investimento cresceu 0,6% e o consumo das famílias, 0,5% sobre o trimestre anterior.

Para completar, a greve dos caminhoneiros agravou um quadro em que a lenta retomada da atividade já dava sinais de desaceleração. "Somente com a publicação de novos dados é que saberemos a real extensão desse evento, e somente então faremos uma nova projeção de crescimento do PIB em 2018", diz a consultoria, antecipando apenas que o número ficará significativamente abaixo de 2% - a previsão mais recente é de 2,2%.

Fonte: Valor - Macroeconomia, por Sergio Lamucci , 05/06/2018