A tendência de avanço do Brasil no longo prazo não foi alterada pelas mais recentes reviravoltas na cena política, na opinião de Ajay Kapur, estrategista de ações para mercados emergentes do Bank of America Merrill Lynch em Hong Kong.
Os investidores internacionais continuam mais interessados no rumo que o país está tomando do que na velocidade com que se move, segundo o economista.
"A maioria dos nossos clientes estrangeiros tem a mesma visão: uma reforma estava em curso, houve um soluço, mas as linhas gerais foram mantidas. Pode lever 6 meses, 12, 18, não sabemos. Existe confiança na direção; isso não se perdeu", disse Kapur em entrevista ao Valor, durante visita ao país na semana passada.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista:
Valor: Como o senhor vê o Brasil neste momento de incerteza e as demais nações emergentes?
Ajay Kapur: Acho que os mercados emergentes, de forma geral, estão indo bem. Mesmo os que historicamente tinham pior desempenho não estão tão ruins, o que é bastante positivo. De 17 países que analisamos, quase todos se encontram melhores do que o seu histórico. Isso significa que têm menores déficits em conta corrente, a maioria possui enormes reservas internacionais, a maioria está passando por um momento de desalavancagem em outras palavras, a forte expansão do crédito vivida por esses países, que no Brasil se deu por volta de 2010, está diminuindo. A inflação está caindo, o valor das suas moedas está mais equilibrado.
Valor: No que diz respeito ao mercado de ações, quais são os seus países favoritos e os que parecem menos atraentes agora?
Kapur: Temos uma tendência a gostar de nações asiáticas, então temos recomendações de compra para China, Coreia do Sul e Taiwan. Temos uma aposta moderada na Turquia também. Estamos neutros em Brasil e temos recomendação de venda para Filipinas, Índia, Malásia, África do Sul, Chile e México.
Valor: Por que a visão mais negativa sobre o Chile?
Kapur: É porque estou um pouco mais pessimista quanto ao ciclo econômico da China, e a produção de cobre tem um importante peso para o Chile.
Valor: E quanto à economia brasileira? É mais diversificada...
Kapur: O Brasil tem uma certa dependência do minério de ferro e de commodities agrícolas, mas há outras coisas interessantes acontecendo no país, como no sistema financeiro, na educação, na indústria e no setor de serviços, que não estão relacionados à China.
Valor: Qual é a maior probabilidade para o Brasil agora: melhorar ou piorar?
Kapur: A probabilidade de que a situação melhore é muito, muito maior. O Brasil viveu um período muito ruim nos últimos seis anos. Uma das razões foi a leitura equivocada de dados vindos da China, como a inflação nos anos de 2009 e 2010. O crescimento nominal do PIB chinês foi de 20% em 2010 e 2011, mas caiu, pelas minhas contas, para zero no ano passado. Houve uma empolgação exagerada por parte do Brasil naquela época com a China, levando a um crescimento muito grande no país do crédito, do investimento, do déficit em conta corrente, e com uma moeda sobrevalorizada todos sinais clássicos de um país que caminhava para o colapso. A boa notícia é que, agora, a conta corrente do país está quase equilibrada, há certo controle sobre a inflação, o problema do déficit fiscal foi identificado e mudanças bastante importantes estão sobre a mesa. Muito trabalho tem sido feito pelo atual ministro da Fazenda: a reforma da Previdência, das leis trabalhistas, do sistema tributário todas para diminuir o déficit e torná-lo mais sustentável.
O Brasil não está ficando mais jovem com o passar do tempo, e as promessas que vocês fizeram para si mesmos vão ficando mais caras. Foram promessas muito generosas, que não são feitas na maioria dos países que analisamos, então não são críveis. Quer as reformas sejam feitas em 6 meses, em 12 ou 18, não estou com tanta pressa. Acho que as reformas vão sair porque não existe alternativa. Além disso, o país vai recebendo mais investimento estrangeiro direto, porque tem grande potencial. O país precisa aumentar sua taxa de poupança, especialmente no setor público, e ter déficit fiscal e uma estrutura do sistema de previdência social menores. Estou muito esperançoso, porque o ponto de partida, agora, é muito bom.
Valor: A China é relevante para o Brasil. Como vão ficar os preços das matérias-primas que o país exporta para essa potência asiática?
Kapur: Os preços vão cair. Tudo indica que o crescimento nominal da China vai desacelerar, o que significa que vai continuar havendo pressão sobre as commodities. Alguns analistas acreditam que vai haver uma correção na recente baixa, uma recuperação dos preços, mas eu não tenho tanta certeza.
Valor: O que mais o governo brasileiro o atual e os próximos pode fazer para continuar alimentando a recuperação da economia?
Kapur: As taxas de juros brasileiras são muito altas por causa das promessas extravagantes que vocês se fizeram, e, para cumprir tais compromissos, um grande volume de dinheiro é retirado dos investimentos. O mundo é duro, não existe almoço grátis, e os países que entendem isso acabam se saindo muito bem. Mas esse problema não é exclusivo do Brasil quem é que não quer um almoço grátis? Se você for populista, vai ficar tentado a usar esse caminho, mas a conta um dia chega. E, no final, o país terá que pagar.
Valor: Uma maior diversificação da economia também pode ajudar a partir de agora?
Kapur: Isso depende das vantagens competitivas de cada país. A classe média na China provavelmente vai chegar a 580 milhões de pessoas em 2022, vai ser um imenso aumento. Antes, o Brasil estava vendendo minério de ferro e soja para os chineses, e isso provavelmente vai mudar, porque agora você vai ver um monte de chineses aqui no Brasil, a passeio, e eles vão consumir produtos típicos da classe média: água mineral, lenço de papel, proteína. O Brasil é muito bom em converter carboidratos em proteína, e tem um monte de água. São as vantagens competitivas que vocês têm. O setor agropecuário é muito forte, assim como determinados setores industriais. Também o mercado financeiro, de derivativos, é muito profundo em nível global.
Valor: Temos visto um grande fluxo de recursos de estrangeiros para a bolsa local. Esses investidores estão apenas agindo de forma especulativa porque acham que a situação vai piorar ou apostam efetivamente na melhora do país?
Kapur: Veja como o mercado respondeu rapidamente depois daquele dia de forte queda duas semanas atrás. É dinheiro de fora que está entrando, porque, aos olhos dos estrangeiros, a baixa parecia uma liquidação: tudo com 20% de desconto. Então os estrangeiros aproveitaram. A maioria dos nossos clientes estrangeiros tem a mesma visão: uma reforma estava em curso, houve um soluço, mas as linhas gerais foram mantidas. Pode lever 6 meses, 12, 18, não sabemos. Existe confiança na direção; isso não se perdeu. Existe alguma percepção de que, como a China vai desacelerar, o setor de produção de commodities pode sofrer um pouco, mas, como eu disse, há um grande setor da economia brasileira que não está atrelado às matérias-primas.
Valor: O Brasil também tem sido muito beneficiado pela elevada liquidez no mundo nos últimos anos. Em busca de maiores retornos, os investidores acabam topando correr mais risco e aplicam nos ativos do país. Quanto tempo essa bonança ainda vai durar?
Kapur: Não muito. O Banco Central Europeu e o Banco do Japão ainda estão comprando ativos no mercado e expandindo os seus balanços, mas acho que isso vai acabar. Os Estados Unidos já pararam e disseram que vão reduzir o seu balanço. No fim deste ano ou no começo do próximo, cada vez mais ouviremos o BCE comentando sobre o que pretende fazer com o seu balanço.
Valor: E o Brasil está preparado para quando esse momento decisivo chegar?
Kapur: Acho que o ambiente global tem sido muito benigno para o Brasil, com a alta liquidez internacional e a grande demanda vinda de outros países. O Brasil deve aproveitar esse clima favorável, mas tem muita lição de casa para fazer ainda.
Valor: Tendo em vista que o cenário mundial vai mudar e o Brasil vai competir mais e mais por recursos com outros países, como se comparam, atualmente, as opções de investimento em ações nas nações emergentes e nas desenvolvidas?
Kapur: Os dois grupos estão indo bem. Os nossos estrategistas estão particularmente animados com a Europa, argumentando que agora existe um crescimento sincronizado dos países da região, com superávit em conta corrente, uma moeda competitiva e ótimos negócios de nível global. O sistema bancário, que sofreu muito desde a crise de 2008, agora está se estabilizando, porque as instituições financeiras fizeram os ajustes de capital de que precisavam. Analisando os preços dos ativos, existe um sentimento de que as empresas europeias estão muito mais baratas do que os seus pares americanos.
Valor: No começo do mês, um investidor americano muito famoso, Jef rey Gundlach, da DoubleLine Capital, disse que a melhor estratégia do momento é apostar contra o índice de ações S&P 500 e comprar ativos de países emergentes, o que animou bastante os investidores nessas nações. Você compartilha de tal visão?
Kapur: Essa é uma opinião muito radical, e não é a visão do BofA. Os meus colegas que cobrem EUA não são tão dramáticos. Mas, como os retornos nos emergentes são mais baixos, porque o custo de capital nesses países é maior, os seus ativos de renda variável têm que ser mais baratos do que nos EUA. Nos emergentes, há muito boas empresas no setor de tecnologia, que apresentam retornos mais altos, mas, fora da Ásia, esse setor não é tão forte. É preciso tomar cuidado com comparações simplistas. Nossa tese é de que os retornos nos emergentes tendem a melhorar, porque esses países estão sendo muito disciplinados com seus investimentos.
Fonte: Valor - Finanças, por Denyse Godoy , 05/06/2017

