Para analisar o mercado de ações, você pode começar dividindo as companhias em dois grupos, as grandes e as pequenas. Para definir o tamanho da empresa, o padrão é usar o chamado “valor de mercado”.

Esse é o resultado da multiplicação do preço da ação pela quantidade total de ações emitidas pela companhia. O objetivo é calcular o montante que alguém desembolsaria caso pudesse comprar dos demais acionistas todas as ações da empresa pela cotação de mercado.

Por esse critério, para levar a Vale, a Petrobras ou o Itaú Unibanco, por exemplo, o interessado teria que desembolsar pelo menos R$ 220 bilhões por cada uma. Já se quisesse comprar Iochpe-Maxion, Smiles ou Tecnisa, o preço sairia mais em conta, na faixa de até R$ 2 bilhões. Investir numa empresa grande dá a sensação de estar associado a um negócio sólido, capaz de se perpetuar ao longo do tempo. Já a compra de ações de uma empresa menor parece indicar uma opção mais arriscada, de uma companhia que pode ser muito bem-sucedida ou acabar engolida pela concorrência.

Uma segunda divisão possível, complementar à primeira, é separar as empresas que estão relativamente caras daquelas mais baratas. Para isso, o padrão é usar os chamados “múltiplos”, no jargão de mercado.

O múltiplo mais popular é o chamado PL, resultado da divisão do preço da ação pelo lucro por ação projetado. Outro índice frequentemente usado é o preço dividido pelo valor patrimonial por ação, abreviadamente P/VPA.

O PL dá uma dimensão da taxa de retorno do investimento. Para entender, pense que o único retorno proporcionado pela companhia é o lucro. Assim, quanto maior o PL, mais tempo irá demorar para que você recupere o que pagou pela ação. Portanto, quanto maior o PL, mais cara a empresa. A conta desconsidera eventual valorização do papel. Já o P/VPA significa o ágio, ou o desconto, do preço de mercado em relação ao patrimônio contábil da empresa. Quando a relação é alta, a sinalização é a de que existe um prêmio sobre o valor patrimonial.

Do ponto de vista teórico, se o custo de reposição é menor do que o valor de mercado é sinal de que existe uma oportunidade para que competidores invistam no setor de atuação da companhia. Quando o P/VPA é alto, a empresa está cara porque a competição afeta a lucratividade do negócio. Mas ninguém compra ações de uma empresa apenas porque ela está cara ou barata. De forma geral, a justificativa para os indicadores mais altos é o potencial de crescimento mais acelerado. Em contrapartida, as empresas com múltiplos menores são avaliadas como de maior valor.

A partir da combinação das divisões acima é possível classificar as empresas de quatro maneiras. As grandes e de crescimento, as grandes e com valor, as pequenas e de crescimento e, por fim, as pequenas e com valor. A longo prazo seria de se esperar que o investimento nas empresas pequenas e com valor fosse mais rentável do que nas empresas grandes e de crescimento. A explicação é intuitiva.

No passado, o ranking das empresas mais valiosas do mundo foi liderado sucessivamente pelas gigantes dos setores de telecomunicações, automobilístico, petróleo, varejo, bens de consumo e bancos. Atualmente as maiores empresas atuam no setor de tecnologia.

O ciclo econômico contribui para a ascensão e queda das grandes companhias. Não é razoável supor que uma empresa grande continuará crescendo indefinidamente.

Portanto, os investidores que buscam empresas pequenas e de valor tendem a ter carteiras mais rentáveis. Isso porque estariam comprando ações relativamente baratas de empresas com potencial de se tornarem grandes.

Nos últimos anos, no entanto, os resultados não foram conforme o esperado. Nos EUA, o índice de ações pequenas e de valor calculado pela Morningstar registrou perdas de 6,69% ao ano nos últimos três anos. Já o índice de empresas grandes e de crescimento teve ganho anual de 19,18% no mesmo período.

O comportamento tem intrigado os especialistas. Uma explicação é o peso da tecnologia no aumento da participação de mercado das companhias mais atuantes, mantendo a lucratividade. Facebook, Amazon, Apple, Netflix e Google são exemplos de empresas que dominam amplamente os mercados que atuam.

Outro ponto relevante é o aumento da importância dos ativos intangíveis para o desempenho operacional das empresas. O valor de uma marca consolidada, as redes de distribuição e o design do produto não são totalmente capturados em seus balanços contábeis.

O atual momento do mercado, de excesso de liquidez para combater os efeitos econômicos da crise do novo coronavírus, favorece os investimentos nas companhias grandes e de crescimento. Mas é importante manter a perspectiva do valor pelo que está sendo pago.

Marcelo d’Agosto é economista especializado em administração de investimentos com mais de 20 anos de experiência no mercado financeiro.

As opiniões contidas neste espaço refletem a visão do analista sobre as companhias, e não a do Valor Econômico. O Valor e o autor não se responsabilizam por prejuízos decorrentes do uso dessas informações (veja os termos de uso completos em www.valor.com.br/valor-investe/o-consultor-financeiro)


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Marcelo D?Agosto, 03/06/2020