Um pouco menos da metade dos setores industriais conseguiu ajustar estoques nos últimos três trimestres, a maioria deles nos segmentos de bens nãoduráveis e intermediários, segundo dados da Sondagem da Indústria de Transformação da Fundação Getulio Vargas (FGV). Essa melhora tem se traduzido em aumento da produção, como no setor de máquinas e equipamentos, em que a fabricação de produtos aumentou pelo segundo mês consecutivo. A preocupação de analistas agora é com a reação da demanda, que também precisa acontecer para que os sinais de estabilização do setor se concretizem em uma efetiva retomada da indústria.
Segundo Tabi Santos, coordenadora da sondagem da FGV, a indústria já conseguiu corrigir cerca de 70% do desequilíbrio de estoques observado no terceiro trimestre do ano passado, quando foi observado o pior resultado para a série histórica recente, pós crise de 2008. O indicador calculado pela fundação caiu de 134,2 pontos em agosto de 2015 para 111 pontos no mês passado.
No terceiro trimestre do ano passado, observa Tabi, todos os setores pesquisados estavam com estoques acima do desejado. No período de abril a maio, 9 dos 19 segmentos pesquisados pela FGV já normalizaram os estoques, sendo que em 18 houve redução do nível de produtos parados na comparação com o terceiro trimestre do ano passado. Para Felipe Salles e Rodrigo Miyamoto, economistas do Itaú, até o fim do ano passado o nível de produção era maior do que a demanda, o que resultou em elevado volume de mercadorias paradas nas indústrias. Desde então, as fábricas reduziram turnos e cortaram funcionários, com o objetivo de reduzir
as mercadorias em estoque. "Mas isso não pode continuar para sempre", observa Salles. Hoje, afirma, há sinais de que o nível de demanda já é um pouco maior do que a produção, o que permite alguma reação do nível de atividade nas fábricas.
Um dos primeiros setores a reagir, observa Miyamoto, é o de máquinas e equipamentos, até porque a decisão de investimentos depende de planejamento de longo prazo. Esse foi um dos ramos de atividade em que o ajuste foi mais intenso nos últimos meses. No terceiro trimestre do ano passado, esse ramo tinha 13,8% a mais de produtos em estoque do que a média histórica. Entre abril e maio, a diferença já era negativa em 6,4%. Ao mesmo tempo, a produção subiu 12,3% entre fevereiro e abril, considerando dados com ajuste sazonal, ainda que a partir de uma base de comparação muito deprimida.
Nem todos os setores, porém, estão se beneficiando desse processo. Em alguns ramos importantes de atividade, como o automotivo, o problema segue emperrando a melhora da produção. Para os economistas do Itaú, esse é um ramo de atividade que depende muito do mercado de consumo doméstico, que neste momento sofre com desemprego alto, queda da renda e confiança ainda baixa.
Para Marcelo Azevedo, economista da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), apesar do importante ajuste de estoques realizado pela indústria nos últimos meses, ainda é cedo para falar de reversão da atividade real no setor. "As boas notícias por enquanto ainda estão mais relacionadas às expectativas, com melhora da confiança, do que a uma real reação da atividade", afirma. Os consumidores, por exemplo, seguem reticentes diante de uma situação financeira bastante delicada.
A indústria, afirma, relata que, além da falta de demanda, encontra dificuldades para acessar o mercado de crédito e obter capital de giro. Por isso, diz Azevedo, há certa preocupação com a redução recente dos estoques efetivos em relação ao planejado. O indicador, que estava acima de 50 pontos em janeiro, vem caindo há quatro meses consecutivos e ficou em 49,1 pontos em abril. Como a indústria continua a reduzir o nível de utilização da capacidade mesmo com estoques abaixo do ideal, afirma, há o temor de que o setor esteja receoso em aumentar a produção e não conseguir encontrar demanda. Outra possibilidade, diz, é que as empresas manufatureiras não estejam conseguindo capital de giro para reativar a produção.
Para os economistas do Itaú, o processo de normalização de estoques permite, no curto prazo, alta da produção mesmo com demanda estável, e por isso o banco trabalha com expectativa de aumento da atividade industrial a partir do segundo semestre. Nesse período o Banco Central também deve começar a cortar juros, diz Salles, o que pode contribuir positivamente. Para Tabi, a reação do consumo é uma preocupação, já que apenas a normalização dos estoques não garante retomada do setor. Por enquanto, porém, os sinais são de que os empresários começam a enxergar uma "luz no fim do túnel". Em maio, diz, tanto a percepção sobre a demanda doméstica quando o indicador de produção prevista registraram avanço em relação ao mês anterior.
Fonte: APeMEC, 03/06/2016

