Num mês que pode selar o caminho para um novo nome na presidência da República, as indicações para a Carteira Valor trazem um misto de defesa, ao contemplar ações de empresas que têm receitas atreladas ao dólar ou que pagam bons dividendos, com casos voltados para o consumo doméstico. O setor financeiro, que chegou a predominar nas escolhas dos analistas nos primeiros meses do ano, agora traz apenas um representante: Itaú Unibanco.

As ações preferenciais do banco ainda lideram as recomendações, aparecendo na preferência de sete das dez corretoras participantes da enquete. Na sequência, empatam Petrobras PN e Klabin unit, com quatro indicações, seguidas por Raia Drogasil ON (três). Com duas indicações cada aparecem Gerdau PN, Lojas Americana s PN, a elétrica Taesa unit, além das ordinárias da locadora de veículos Localiza e da fabricante de motores WEG. Pelo critério de liquidez, Vale PNA completa a lista "top 10", com duas recomendações, deixando fora da carteira as units da AES Tietê, que também receberam duas menções.

Com o fluxo de notícias de teor político e os prováveis impactos na atividade econômica, o time de pesquisa da Bradesco Corretora espera uma postura mais cautelosa dos investidores em ações no curto prazo. Em meio às incertezas em relação à intensidade da queda dos juros, crescimento do PIB e o andar do ajuste fiscal, opções menos dependentes do tema crescimento e papéis com características defensivas é que ganham apelo.

A casa incluiu na Carteira Valor de junho, por exemplo, Itaú Unibanco, um investimento que considera positivo mesmo com a expectativa de crescimento moderado para a atividade de crédito em 2017 ­ de 4%, após o recuo de 11,5% em 2016.

A percepção é que o maior banco privado do país seguirá reduzindo sua exposição ao segmento corporativo e tende a ser bem conservador ao longo do ano. Os analistas também veem uma melhora geral na qualidade dos ativos da instituição, o que deve levar a uma redução significativa das despesas com provisão para créditos de difícil liquidação. Para a linha final da demonstração financeira, a projeção é de um lucro 15% maior do que o de 2016, com um retorno sobre o patrimônio na casa dos 20%, "o que pode ser visto como amplamente satisfatório em qualquer cenário econômico, sobretudo na atual fase da economia brasileira".

Cauê Pinheiro, da Citi Corretora, acrescenta que mesmo após a aquisição da XP Investimentos, o Itaú ainda tem excesso de capital e pode manter um "pay out" (a proporção do lucro distribuída aos acionistas) elevado. A casa revisou o preço­alvo da ação para baixo, de R$ 46 para R$ 44, a fim de contemplar um cenário macroeconômico mais adverso, mas ainda assim o retorno total projetado para o investidor é de 29%. "Dentre os bancos, é o mais defensivo, o melhor ativo para se ter em carteira dado o cenário atual."

Klabin, por sua vez, foi uma inclusão da Citi Corretora no portfólio de junho para deixar a carteira "top 5" menos vulnerável às intempéries domésticas. Com cerca de 40% das receitas em moeda estrangeira, a companhia pode se beneficiar da aceleração do crescimento mundial, afirma Pinheiro, que vê fundamentos promissores para o segmento de papel kraftliner, usado em embalagens.

"Já vimos um pouco de aumento da demanda na Europa no primeiro trimestre e tem havido melhora também nos Estados Unidos, depois de algumas paradas [de produção] em determinados mercados, o que possibilita um espaço para a empresa ampliar as exportações para esse tipo de produto." O analista ainda cita que a unidade de celulose Puma agora opera com 100% da sua capacidade, com retornos que têm superado as expectativas iniciais. Se confirmado, isso vai contribuir para a desalavancagem financeira da empresa. A expectativa da casa é que a relação dívida líquida/Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), atualmente em 4,7%, caia para a casa dos 4% até o fim do ano.

A diversificação geográfica da Gerdau, que extrai metade da receita consolidada  da operação dos Estados Unidos, também justifica a manutenção do papel na carteira da corretora do Citi, apesar de ser uma ação normalmente mais volátil ­ que quando cai, perde mais do que o Ibovespa. Para  Pinheiro, um viés mais protecionista sinalizado pela administração do presidente Donald Trump, nos EUA, tende a beneficiar as empresas instaladas em solo americano. Além disso, a companhia pode ganhar com a desvalorização do dólar em duas pontas: pelas receitas em moeda estrangeira e, localmente, por uma eventual queda das importações, favorecendo fornecedores locais de insumos siderúrgicos.

Taesa, que já estava na carteira da corretora pelo viés de defesa, provou seu valor no meio do estresse político, tendo fechado o mês com valorização de 3,07%, enquanto o Ibovespa recuou 4,12%. A avaliação é que a empresa combina resistência, pelas receitas ajustadas pela inflação, com crescimento, dado o valor atrativo da ação e a baixa alavancagem da empresa, equivalente a 2,1 vezes o Ebitda. Com um "dividend yield" (retorno em dividendos) atrativo, superior a 15% para os próximos 12 meses, o papel ganha mais apelo em meio à queda da taxa Selic, reduzida na quarta-­feira para 10,25% ao ano.

Com o cenário político incerto, nas suas escolhas para junho o analista Roberto Indech, da Rico Corretora, procurou ações mais correlacionadas com o Ibovespa, além de ficar posicionado em ativos que proporcionassem alguma proteção para a carteira, como WEG e Raia Drogasil.

Ele cita que a empresa líder no mercado brasileiro de farmácias é um caso de investimento que tem mostrado resultados consistentes, independentemente do ritmo da atividade econômica. Olhando à frente, o aumento da renda e o envelhecimento da população são catalisadores potenciais para o papel. É um ativo cujo valor tem sido reconhecido pelo mercado e que em pleno recente revés bateu novas máximas históricas. Fechou maio com valorização de 6,75%.

A fabricante de motores elétricos WEG, por sua vez, é exemplo típico de proteção em dólar, diz Indech, recomendada principalmente em períodos de maior volatilidade, já que tem cerca de metade da receita em moeda estrangeira. "A empresa sofreu com a recessão no Brasil nos últimos dois anos, teve resultados ruins, mas procurou acesso no mercado externo para manter o resultado e não depender tanto do cenário nacional."

Apesar de o Comitê de Política Monetária (Copom) ter sinalizado que pode impor um ritmo mais comedido ao corte da taxa básica de juros, a tese de recuperação do varejo segue válida, e isso justifica manter Lojas Americanas entre as recomendações para o mês, diz Indech. Além de a rede ­ com mais de 1.100 lojas e presença em todo território nacional ­ deter uma grande participação do comércio brasileiro em diversos segmentos, ele diz esperar a redução da alavancagem da companhia. E vislumbra um valor potencial após o aumento de capital de R$ 2,5 bilhões em fevereiro ter pressionado as ações da varejista.

A XP Investimentos também decidiu adotar uma postura mais conservadora em função das incertezas levantadas após a delação do empresário Joesley Batista, do grupo JBS, e o vazamento de uma conversa com o presidente Michel Temer. Sem saber dimensionar ainda os efeitos sobre a economia
real, a escolha foi incluir ativos de perfil defensivo, reduzindo a exposição a banco público.

Uma das novidades na carteira do mês foi Localiza, um ativo que pode se beneficiar tanto do corte de juros quanto da conjuntura setorial, por manter a liderança no segmento de locação de veículos.

Vale e Petrobras, com grande peso no Ibovespa, completam o rol de indicações para o mês. A mineradora entrou na seleção top 5 da BB Investimentos, pelo fato de se beneficiar da desvalorização cambial que pode ocorrer ao longo de junho, dado que a maior parte das suas receitas provém do mercado externo. Os analistas da casa mencionam também a estratégia do novo executivo-­chefe da Vale, Fabio Schvartsman (ex­Klabin), de expandir os negócios por meio de aquisições, o que pode ajudar a companhia a diversificar seu portfólio e reduzir o risco de exposição muito elevada ao segmento de minério de ferro.

Mesmo com a chance de uma mudança no Planalto, caso o presidente seja afastado no julgamento da chapa Dilma­-Temer pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), previsto para a semana que vem, Pinheiro, da Citi Corretora, não vislumbra mudanças no comando da Petrobras. As ações da petrolífera foram mantidas na carteira recomendada sob a tese de que a companhia segue com seu plano de venda de ativos, redução de custos e de endividamento sob a gestão de Pedro Parente.

Fonte: Valor - Finanças, por Adriana Cotias, 02/06/2017