O resultado do PIB do primeiro trimestre corrobora o que esperamos para 2018: um crescimento gradual da economia. A alta de 0,4%, quando comparada com o trimestre anterior, revela que começamos o ano em marcha lenta, uma vez que tanto os serviços quanto a indústria, que somados compõem 82% do PIB, cresceram apenas 0,1%. Foi a agropecuária quem puxou o crescimento com alta de 1,4% contra o último trimestre do ano anterior. Pela ótica da demanda, o investimento cresce lentamente, assim como o consumo, enquanto os gastos do governo seguem retraindo. Esse comportamento não deve mudar ao longo dos próximos trimestres.
São dois os vetores que nos deixam pouco otimistas, esperando um PIB para o ano entre 1% e 1,5%. O primeiro vetor é doméstico. O governo está paralisado há mais de um ano. Após o impeachment, tivemos uma curta "lua-de-mel" entre Executivo e Legislativo que tornou possível a aprovação de algumas medidas e permitiu à economia sair da estagnação. Fizemos a reforma trabalhista, o teto dos gastos, melhoramos o marco regulatório do petróleo, acabamos com a TJLP, entre outras ações importantes no âmbito microeconômico. Essa agenda foi uma condição necessária para o país reagir, mas ela não é suficiente para iniciarmos uma rota de crescimento sustentável.
A expectativa de crescimento para esse ano, que chegou perto de 3% em março de acordo com a pesquisa Focus, deverá ser revista em breve do seu patamar atual de cerca de 2,3%. Pelo anedótico que temos até o momento, a greve dos caminhoneiros teve impactos econômicos muito mais fortes do que o imaginado nos seus primeiros dias, mas sua principal consequência é o aumento da incerteza eleitoral e dos receios político-institucionais. O que se observou com a crise foi um amplo apoio da sociedade a um maior gasto com subsídios, uma repulsa à taxação, um questionamento em torno da independência de gestão da Petrobras e um posicionamento populista dos congressistas, sejam eles de esquerda, de direita ou de centro.
Já o segundo vetor baixista é externo. Os juros americanos subiram, o dólar se valorizou, o petróleo subiu de preço e o apetite pelo risco de "emergentes" diminuiu. O protecionismo da Era Trump, as ameaças comerciais entre EUA e China e as tensões políticas na Itália e na Espanha aumentam o risco de vivermos com inflação mais alta e um crescimento menor nos próximos trimestres. Assim, não bastassem nossos problemas internos, o cenário internacional também se tornou menos previsível.
Infelizmente, somos um país de baixa taxa de poupança, a média dos últimos 12 meses está em 14,9%, e para crescer precisaremos atrair poupança externa. Ainda que nossas contas externas estejam equilibradas e o câmbio aparentemente no lugar, o atual equilíbrio é decorrência da grande compressão da demanda doméstica privada, em especial do investimento, ocorrida nos últimos anos.
O começo deste ano está refletindo a incerteza do país com as escolhas que vamos fazer. Temos um enorme problema fiscal, que infelizmente não pudemos começar a organizar com o aborto da reforma da Previdência. Para a dinâmica da nossa dívida pública não explodir, teremos que rever nossas despesas obrigatórias, cortar mais subsídios e diminuir cada vez mais o intervencionismo estatal. Do contrário, haverá forte aumento de impostos e no pior dos mundos, volta da inflação. Com esse cenário de incerteza, como investir ou consumir? Enquanto não enfrentarmos esses problemas, a incerteza continuará e a economia vai andar medíocre.
*Economista-chefe da ARX Investimentos
Fonte: Valor - Macroeconomia, por Solange Srour, 01/06/2018

