O economista-chefe do Rabobank, Mauricio Oreng, evitou fazer mudanças significativas em suas projeções para o Produto Interno Bruto (PIB) em momentos de amplas alterações das estimativas do mercado. Dois exemplos são a crise deflagrada pela gravação da conversa entre o presidente Michel
Temer e o empresário Joesley Batista e as diversas revisões feitas no começo do ano, quando o otimismo se espalhou pelo mercado.

Mas as projeções do economista do Rabobank não resistiram às turbulências recentes, como a crise dos combustíveis e a piora das condições financeiras. Na quarta-feira, ele revisou as suas estimativas para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano, de 2,2% para 1,6%, e do próximo, de 3,2% para 2,6%, com impactos significativos principalmente sobre os investimentos, onde batem "os principais ventos contrários" atualmente. Por tudo isso, Oreng não descarta uma nova revisão de sua projeção para o crescimento da atividade neste ano. "Não dá nem para descartar um PIB mais próximo de 1%", diz.

Valor: Qual a sua avaliação sobre o resultado do PIB do primeiro trimestre?

Mauricio Oreng: Os números do PIB e os dados de alta frequência apontam para uma recuperação gradual da economia. O crescimento do primeiro trimestre mostra uma demanda doméstica não tão ruim. Houve contribuição negativa do setor externo, porque as importações estão se recuperando, o que tem a ver com o crescimento da economia. A demanda doméstica em si - que inclui consumo das famílias, governo e investimentos - foi relativamente fraca no trimestre, por causa do governo, cujo consumo caiu 0,4 %.

Em termos anualizados, o consumo das famílias e os investimentos cresceram 1,8% e 2,5% respectivamente, o que não é exuberante. Ao que parece, houve alguma formação de estoques, o que é consistente com as sondagens da indústria. Além disso, aparentemente foi um aumento de estoques desejável, o que não sugere que será necessário um ajuste no segundo trimestre. De certa forma, é uma boa notícia, que vai na linha de uma recuperação gradual. É como se as empresas estivessem se preparando para um ambiente relativamente bom ou pelo menos melhor do que nos últimos anos.

Valor: E o que esse quadro pode dizer a respeito do resto do ano?

Oreng: Tudo isso, claro, é uma foto do primeiro trimestre. O problema são as coisas que aconteceram no segundo trimestre, e isso de fato tem implicações para o crescimento anual. No acumulado em quatro trimestres, que mostra uma tendência mais suave, o crescimento acumulado é de 1,3%, o melhor desempenho desde o segundo trimestre de 2014. A demanda  doméstica está crescendo 1,2%. Então, de fato, há uma recuperação. O mercado ficou muito otimista no fim do ano passado, quando elevou as projeções para a casa de 3%. Agora pode ser que o mercado exagere para o outro lado. E a minha visão está mais ou menos no meio do caminho, de que esta é uma recuperação gradual mesmo, de melhora aos poucos, com sinais claros. A questão é a velocidade.

Valor: O senhor não mudou a sua projeção quando houve o vazamento da gravação da conversa entre o presidente Michel Temer e o empresário Joesley Batista. Há alguns meses foi realizada uma onda de revisões para cima, mas o senhor também não mudou a sua projeção. Agora todo mundo está fazendo revisões para baixo. O senhor continua prevendo crescimento de 2,2% para este ano?

Oreng: Há dois pontos importantes. Um é o choque cambial. Eu já não estava muito otimista com os investimentos neste ano, calculava quase uma estabilização, um crescimento muito pequeno, com uma alta maior no ano que vem. Isso não mudou, mas houve o choque cambial e a deterioração das
condições financeiras, que se somam à incerteza eleitoral, algo que já era um fator que pesaria sobre os investimentos. E agora tem essa piora das condições financeiras: câmbio mais depreciado, impactos no mercado [financeiro]. Isso chama a atenção das empresas e tende a apresentar efeitos sobre o crescimento.

Valor: E há a paralisação...

Oreng: Esse é o outro ponto. Aparentemente as coisas estão voltando a funcionar, de forma gradual. O impacto nos serviços tende a ser maior. Certos segmentos agropecuários conseguem recuperar boa parte do que foi perdido. Dependendo das condições de demanda, a indústria consegue fazer mais turnos, ao longo de semanas, meses. Mas os serviços, não, eles não são estocáveis. A pessoa não vai duas vezes ao restaurante que deixou de ir no fim de semana. A tendência é que isso tenha um impacto importante no segundo trimestre.

Valor: De quanto pode ser esse impacto?

Oreng: Não dá para ter uma ideia muito precisa, mas por enquanto calculo [negativo] 0,3 ou 0,4 ponto percentual (p.p.) para o crescimento. Então um PIB que cresceria 0,5% ou 0,6% no segundo trimestre iria para 0,2%. Isso contamina as expectativas para o ano. Somando piora de condições financeiras e paralisação, além de uma leve decepção no primeiro trimestre, estamos revisando a projeção do PIB em 0,6 p.p. para baixo. Estávamos com 2,2%, agora calculamos 1,6%, e os riscos estão levemente enviesados para baixo. O impacto da greve pode ser maior do que se imagina, as condições financeiras também podem piorar. O cenário eleitoral pode afetar a execução de investimentos. Mesmo para o consumo no terceiro trimestre, há riscos de baixa importantes. Não dá nem para descartar um PIB mais próximo de 1%. Acho mais fácil um PIB de 1% do que de 2%.

Valor: A que o sr. atribui a recuperação lenta? A eleição e a capacidade ociosa da economia estão atrapalhando a retomada?

Oreng: São dois fatores importantes, que pesam particularmente sobre os investimentos. De forma geral, a economia brasileira ainda está digerindo os efeitos da política econômica anterior. Naqueles anos, houve muita antecipação de demanda, com programas de estímulos. A greve dos caminhoneiros até ilustra isso. Foram feitos programas de estímulo para caminhões, e no fim a demanda não era toda aquela.

Valor: Isso derrubou o preço do frete...

Oreng: Exato. A mesma coisa serve, por exemplo, para a construção civil. O setor aparentemente não digeriu os excessos do passado, mas que também foram criados pela recessão. Então, há uma série de ajustes que a economia ainda está digerindo. É um processo lento mesmo. Saímos de uma recessão muito forte. Não é que todos os setores vão sofrer eternamente, mas alguns deles ainda sofrem e vão se recuperar de forma mais lenta. Tudo isso se soma à questão eleitoral e à capacidade ociosa, que, de certa forma, também é efeito da recessão.

Valor: O spread alto tem atrapalhado a retomada?

Oreng: Eu olharia mais pelo lado da oferta de crédito. No caso das pessoas físicas, houve uma boa desalavancagem. Mas isso não significa que há espaço para voltar aos mesmos níveis de endividamento de anos atrás, porque aquilo foi um pouco forçado, fruto de políticas de expansão creditícia promovida pelo governo. Certamente não voltaremos para aquele pico de endividamento. Um exemplo disso foi o do ano passado, quando houve o incentivo do FGTS. Parte daquilo foi para pagar dívida. De certa forma, até o consumidor também está evitando um endividamento maior. Então, não culparia os spreads bancários pela retomada gradual do consumo. Lembrando também que o mercado de trabalho está se recuperando de forma gradual.

Valor: E no caso das pessoas jurídicas?

Oreng: Nas pessoas jurídicas, há um processo ainda em curso de desalavancagem. Algumas empresas acessaram o mercado de capitais, explicando pelo menos parte da desaceleração do crédito para companhias.Mas ainda há companhias com questões de balanços, refletindo efeitos não econômicos. O spread é alto há muito tempo por questões estruturais. A política monetária está fazendo o que pode, o Banco Central já cortou bastante a taxa de juros para um patamar expansionista. Agora, o Banco Central está trabalhando para reduzir estruturalmente os spreads. Isso é um trabalho que precisa ser feito. Não estou dizendo que [reduzir] o spread não serve para nada. É importante. Mas isso não explica uma questão até cíclica. Eu vejo mais pelo lado de algumas dificuldades estruturais que a economia brasileira ainda está vivendo e alguns efeitos da recessão.

Valor: O sr. citou também o mercado de trabalho. Ele é causa dessa recuperação lenta, consequência ou um pouco dos dois?

Oreng: O mercado de trabalho é ao mesmo tempo causa e consequência, porque ele anda simultaneamente com a economia. Agora está em linha com a economia, com queda gradual do desemprego. O Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) mostra que a economia já está criando empregos formais, talvez não em um ritmo exuberante, mas passo a passo. A queda da inflação ajudou a aumentar o poder de compra, a massa salarial está crescendo, também não em um ritmo exuberante, em torno de 2% (na comparação anual). O emprego informal se recuperou antes do formal, o que de certa forma também tem implicações a respeito desse ritmo gradual do consumo. O formal dá mais confiança para a pessoa ir lá e gastar. Vejo o mercado de trabalho dentro desse contexto de recuperação gradual.

Valor: Dentro dessa nova projeção de alta de 1,6% para o PIB, o que pode aparecer como destaque?

Oreng: Há um ambiente razoável para o consumo. Tendo a achar que ele vai melhor do que o PIB neste ano, com crescimento de 2,7%. Pode ser que os investimentos cresçam mais do que o consumo. Mas o ponto é que o consumo será um fator mais importante para este ano, com uma contribuição maior do que a dos investimentos [em função da maior participação do consumo no PIB].

Valor: Por quê?

Oreng: Há essa recuperação gradual do mercado de trabalho, a renda está subindo. Isso tende a continuar. Existe incerteza em relação ao cenário fiscal, mas as empresas vão esperar, ninguém vai sair demitindo antes de ter uma visão muito clara do que vai acontecer. Ninguém tem interesse em fazer grandes contratações, mas a roda está girando. Há sinais positivos do consumo de certos bens. Os principais ventos contrários à economia neste ano batem mais nos investimentos do que no consumo. Se você está com o pátio meio vazio, vai esperar chegar a um nível de produção mais alto para começar a pensar em expansão. Tem a questão da eleição. Nos serviços, também. O sujeito não vai ampliar ou comprar mais restaurantes, ele vai esperar o que vai acontecer. Claro que o consumidor também olha para a frente, mas ele tem um pouquinho mais de espaço para um crédito, os juros estão mais baixos. Nos investimentos, você se compromete por mais tempo.

Fonte: Valor - Macroeconomia, por Estevão Taiar, 01/06/2018