O PIB do primeiro trimestre cresceu 0,2% frente aos últimos três meses de 2013, quando havia registrado uma alta de 0,4%. Já em relação ao período de janeiro a março de 2013, a alta foi de 1,9%, inferior aos 2,2% do quarto trimestre nessa mesma base de comparação.

No acumulado dos últimos quatro trimestres (12 meses), o PIB avança a um ritmo de 2,5%. Analistas esperam, porém, uma perda de velocidade e uma expansão entre 1,5% e 2% neste ano.

Os dados foram divulgados nesta sexta-feira (30) pelo IBGE.

A alta do PIB em relação ao quarto trimestre é a mais fraca desde o terceiro trimestre do ano passado. Já a expansão no trimestre frente ao mesmo período do ano anterior correspondeu ao pior desempenho desde os últimos quatro meses de 2012.

A desaceleração da atividade econômica no trimestre passado veio em meio à queda generalizada da confiança dos agentes econômicos no ano em que a presidente Dilma Rousseff tenta sua reeleição.

DEMANDA

A análise pela ótica da demanda mostra que o consumo das famílias, item de maior peso no PIB, caiu 0,1% no período. É o pior resultado desde o terceiro trimestre de 2011.

A perda de ritmo é uma resposta a um cenário menos favorável à expansão da atividade econômica, com juros maiores, confiança de empresários e consumidores cada vez mais fraca (o que sinaliza menor crescimento à frente), crédito caro e mais restrito (um reflexo da inadimplência em patamar elevado e de juros altos) e inflação maior.

Com o custo mais elevado principalmente de alimentos, sobra menos dinheiro para consumir bens menos essenciais e mais caros. "A inflação corroeu a renda das famílias", diz Alessandra Ribeiro da Tendências Consultoria.

Ainda sob a ótica da demanda, os investimentos, num contexto de empresários menos otimistas, perdeu força e caiu 2,1% no primeiro trimestre, numa tendência diferente de trimestres anteriores.

Trata-se de um mal sinal: a base produtiva do país só aumenta com mais investimentos na indústria, infraestrutura e outros segmentos.

Com isso, a taxa de investimentos em relação ao PIB ficou em 17,7% no trimestre passado, o pior resultado para o primeiro trimestre desde 2009.

OFERTA

Sob a ótica da produção, a indústria foi o grande destaque negativo, com queda de 0,8% no primeiro trimestre frente aos quatro últimos meses de 2013, afetada por menores exportações (sobretudo para uma Argentina em crise), investimentos em desaceleração, juros altos e confiança combalida.

O tombo da indústria foi o mais intenso desde o segundo trimestre de 2012, ano de baixo crescimento econômico, quando a economia cresceu só 1%, num ritmo ainda mais lento do que o atual.

Já os serviços, setor de maior peso (mais de 60% do PIB), avançou 0,4% e evitou uma retração da economia.

A agropecuária, que vem de bons resultados, manteve a tendência e subiu 3,6% na comparação com o último trimestre do ano passado.

PROJEÇÕES E REVISÕES

O desempenho do PIB frente aos últimos três meses de 2013 ficou em linha com as previsões de analistas –que era também de 0,2% ante o quarto trimestre, na comparação livre de efeitos sazonais (típicos de cada período) - e ligeiramente inferior aos 2% estimados para a comparação com os três primeiros meses de 2013, segundo levantamento da agência Bloomberg.

O dado do IBGE para o PIB de 2013 foi revisado e revelou um crescimento econômico maior em 2013 -de 2,5%, ante uma expansão divulgada de 2,3% para o ano passado.

Já a taxa acumulada em 12 meses (quatro trimestres encerrados em março deste ano) apontou alta de 2,5%.

Ao rever os valores de 2013, o IBGE incorporou a nova pesquisa de indústria do instituto, que foi atualizada e com novos pesos para os setores. A alteração melhorou o desempenho da indústria em 2013, de 1,3% para 1,7%, que, no entanto, seguiu abaixo do avanço do resto da economia.

Um fator importante se deu diante do aumento da participação de veículos, ramo com fraco desempenho no primeiro trimestre, pelos dados de produção. Já alimentos, outro grande ramo industrial, perdeu importância no setor fabril e no PIB, por consequência.

Ribeiro, da Tendências, estimava uma revisão do PIB para 2,6% do PIB de 2013 e uma taxa negativa de 0,1% no primeiro trimestre.

"Os veículos ganharam peso e vieram muito mal no primeiro trimestre. Mas não só isso. O conjunto da obra é muito ruim, com um mercado de trabalho mais frio [emprego estagnado] e todo um cenário doméstico ruim, que tende a pior num ano de eleições, quando decisões de investimento ficam em compasso de espera sobretudo quando a oposição mostra chances de disputar."

A revisão do dado de 2013 foi turbinada pelo melhor desempenho da agropecuária (de 7% para 7,3%), da indústria (1,3% para 1,7%) e dos serviços (2% para 2,2%). A alteração da pesquisa de indústria respondeu os pesos de todos o setores e, com um maior crescimento do setor fabril, há um impacto nos demais ramos que fornecem às fábricas.


Fonte: Folha de São Paulo, por Pedro Soares e Samantha Lima, 30/05/2014