O recrudescimento da crise política contaminou a perspectiva de flexibilização monetária. A trajetória de queda da Selic não está comprometida, mas seu ritmo e extensão foram rebalanceados. Há duas semanas, prosperava a ideia de que o Banco Central aceleraria o corte para 1,25 ponto percentual na próxima semana. Agora, entre 41 analistas de instituições financeiras e consultorias ouvidos pelo Valor PRO ­ serviço de informações em tempo real do Valor ­, 35 acreditam em corte de 1 ponto, levando a Selic a 10,25% ao ano. Só um manteve a aposta em 1,25 ponto.

Em sete meses, a taxa básica caiu 3 pontos percentuais ­ de 14,25% para 11,25% ­ e continuará em queda, autorizada pela desinflação que levou o IPCA acumulado em 12 meses a menos de 4%. Os profissionais do mercado não arriscam previsões para o encerramento do processo de readequação da política de juros ao cenário atual, mas está claro que arrefeceu o entusiasmo dos agentes econômicos, que até recentemente viam espaço para Selic a 7% em dezembro.

A boa notícia que o Planalto espera para esta semana ­ a divulgação do crescimento da economia no primeiro trimestre, a primeira alta em dois anos ­ corre o risco de se tornar um "falso positivo". É praticamente consenso entre os economistas que a recupe­ração, agora, será ainda mais lenta.

O avanço de quase dois dígitos da atividade agropecuária é a grande força por trás do crescimento de 0,9% esperado para o Produto Interno Bruto (PIB) no período, em relação ao trimestre anterior, conforme a média de 20 projeções enviadas por consultorias e instituições financeiras ao Valor.

No entanto, para os demais componentes do PIB, o resultado se aproxima de zero. Diante do agravamento da crise política, cresceu o número de  analistas que avaliam que a economia pode voltar a cair no segundo trimestre e que o resultado do ano, com consumidores e empresas mais cautelosos, será mais modesto do que se esperava. A média, por enquanto, está em 0,6%.


Fonte: Valor - Finanças, por Angela Bittencourt, Lucas Hirata, Camilla Veras Mota e Estevão Taiar, 29/05/2017