O mercado de renda fixa deve reagir hoje à intervenção do Tesouro Nacional, com queda nas taxas de juros especialmente dos vencimentos mais longos. Uma semana depois de o Banco Central (BC) anunciar reforço na atuação no câmbio foi a vez de o Tesouro agir para acalmar os investidores.

Em comunicado no início da noite de sexta-feira, o Tesouro anunciou que pretende realizar leilões extraordinários de títulos públicos prefixados nesta semana (dias 28, 29 e 30). Os leilões serão diários de compra, ou de compra e venda, de Notas do Tesouro Nacional, Série F (NTN-F), com vencimentos em janeiro de 2025, janeiro de 2027 e janeiro de 2029. As condições das ofertas serão divulgadas no dia, no site do Tesouro.

"O objetivo da atuação é fornecer suporte ao mercado de títulos públicos garantindo bom funcionamento desse e de outros mercados correlatos", disse, em nota. O Tesouro também informou que serão cancelados o leilão tradicional de venda de Notas do Tesouro Nacional - Série B (NTN-B), programado para amanhã (29), e os leilões tradicionais de venda de Letras do Tesouro Nacional (LTN) e de NTN-F, no dia 30 de maio.

A estratégia é adotada em momentos de alta volatilidade e quando há sinais de desfuncionalidade do mercado, como aumento excessivo das taxas ou falta de liquidez para quem deseja trocar de posição.

A deterioração do ambiente de negócios tem ficado evidente na escalada dos juros de longo prazo, que não deixam dúvidas sobre a piora da percepção de risco dos investidores em maio. Os juros futuros e as taxas dos títulos públicos já avançam aos maiores níveis desde meados do ano passado, em meio a incertezas externas e locais.

O DI para janeiro de 2027 subiu para 11,210%, patamar mais elevado desde 8 de junho do ano passado, quando fechou em 11,240% - uma diferença de quase 5 pontos percentuais para a taxa Selic, hoje de 6,5% ao ano. Há cerca de um ano, entretanto, quando a Selic estava em 10,25% ao ano, a diferença para o juro longo era de quase 1 ponto percentual, o que evidencia a piora das perspectivas a despeito da conjuntura atual de inflação contida e recuperação gradual da atividade.

O peso das incertezas também fica claro na chamada inclinação da curva de juros, que mede a diferença entre contratos longos e curtos. A distância tem se elevado numa linha reta desde fevereiro e chega agora a 268 pontos-base, cerca de 100 pontos acima das mínimas do ano. O cálculo leva em conta os contratos de DI para janeiro de 2023 e 2020.

O mercado de títulos públicos não tem desempenho melhor. Na semana passada, o juro real da NTN-B para 2055, o mais longo da série, subiu para 5,5400%, o que não era visto desde 12 de julho de 2017 quando marcou 5,5421%. Os investidores têm sentido no bolso o momento de maior instabilidade no mercado. O índice IRFM 1+, que mede o retorno dos investimentos de renda fixa com mais de 1 ano, acumula perda de 2,05% neste mês. A não ser que haja um amplo alívio nesta semana, será a baixa mais acentuada desde setembro de 2015 (-2,29%), quando o país perdeu o grau de investimentos pela S&P. 

O mês de maio deixa duras marcas no mercado de renda fixa. Eventos como a recalibragem na política monetária americana, que gerou fuga de investidores de países emergentes; a surpresa com o Copom, que sinalizou redução da Selic, mas acabou decidindo mantê-la no atual nível; e agora a crise envolvendo os caminhoneiros, com impactos negativos para a Petrobras e a política fiscal, fizeram a curva de juros empinar. E parte da pressão vem da saída de investidores estrangeiros.

Com a intervenção, o Tesouro coloca no mercado algum tomador de risco prefixado de longo prazo e garante que os poucos compradores do mercado não sejam prejudicados por um momento de falha de mercado. Como dispõe de mais de R$ 600 bilhões de reservas - o chamado colchão de liquidez -, a instituição tem como atuar, acalmando o mercado e normalizando, na medida do possível, o processo de formação de preços.

O mercado já vinha cogitando, e até esperando, a atuação do Tesouro Nacional, já que a instabilidade não tem dado trégua. A última vez que o Tesouro fez esse tipo de intervenção, ao lado do BC, foi em maio do ano passado, logo depois da crise gerada pelas gravações da JBS contra o presidente Michel Temer, que provocou forte turbulência no mercado naquele período.


Fonte: Valor - Finanças, por Fabio Graner e Lucas Hirata , 28/05/2018