As indústrias brasileiras ainda caminham muito lentamente na incorporação de novos recursos da quarta revolução tecnológica em seus processos produtivos, segundo levantamento inédito do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) com 416 companhias de todo o país.

Com base em testes de maturidade sobre o uso de tecnologias digitais, que tinham escala de 1 a 5, quase três quartos das empresas (304) ficaram nas duas notas mais baixas. Isso mostra que elas pouco aproveitam avanços como inteligência artificial, computação em nuvem, big data e impressões 3D no chão de fábrica. Na média, a pontuação foi de 2,45.

Os dados não chegam a surpreender, diz o diretor-geral do Senai, Rafael Lucchesi, mas comprovam a urgência com que o Brasil precisa disseminar essas novas tecnologias se não quiser se desindustrializar ainda mais.

"A indústria 4.0 é a grande oportunidade para que as empresas brasileiras se tornem mais produtivas", diz Lucchesi. "Compreendemos que o caminho rumo à manufatura avançada é mais do que adotar novas tecnologias, como inteligência artificial e big data. Exige, entre outros aspectos, a qualificação de profissionais que vão programar máquinas complexas, implantar novos processos e, principalmente, tomar decisões em tempo real."

Não houve diferenças significativas entre médias, pequenas e microempresas. Só as grandes levam pequena vantagem sobre o nível de maturidade no uso das tecnologias. A interpretação é de que um líder engajado, a abertura das empresas a parceiros ou universidades e a agilidade em aprender com experimentos são fatores mais decisivos do que o mero tamanho da companhia.

Gratuito e online, o teste do Senai foi baseado em modelo desenvolvido pela Academia Nacional de Ciência e Engenharia, com sede na Alemanha. As empresas no estágio 1 planejam a produção por meio de métodos empíricos e a controlam por meio de pranchetas e papel. No nível 2, implementam métodos de manufatura enxuta e usam sensores para coletar informações em tempo real, conectando a produção a sistemas de gerenciamento.

No terceiro degrau, quando se considera que a companhia está inserida de fato na rota rumo à indústria 4.0, a empresa utiliza tecnologias como computação em nuvem, big data e machine learning, que permitem aprender com o sistema produtivo, por meio da análise de seu histórico, tornando-se mais ágil a partir de análises e planos de ação. Nos estágios seguintes (4 e 5), é possível prever situações com sistemas de suporte a decisões, inteligência artificial e robótica colaborativa.

A Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), ligada ao governo, concorda com a percepção de que é preciso agir rapidamente. Além de oferecer um questionário com autoavaliação às empresas interessadas, que podem medir o nível de incorporação dos processos 4.0, vai ser lançada uma plataforma eletrônica com um catálogo de fornecedores de tecnologias e serviços.

Recentemente, dez empresas ou consórcios foram selecionados pela ABDI para a implantação de "test beds". Trata-se de um ambiente de demonstração de tecnologias 4.0 em microáreas nas linhas de produção. A ideia é fazer testes localizados suas funcionalidades antes de investimentos mais pesados na incorporação definitiva dos processos fabris.

Cada projeto financiado custa R$ 300 mil, em um aporte total de R$ 3 milhões, e a agência se beneficia com o acesso completo ao impacto das ações. Assim, pode-se construir um banco de "melhores práticas" sobre o uso desses sistemas na indústria nacional e enriquecer políticas públicas. Uma condicionante imposta pela ABDI é o envolvimento de micro e pequenas empresas, e a capacitação de pelo menos 50 funcionários nesses processos.

Um consórcio de indústrias do parque tecnológico de São José dos Campos (SP), a Whirpool, a Escola Politécnica da USP e a Universidade Federal do Paraná estão entre as selecionadas - as instituições de ensino superior podem entrar como "laboratórios".

"Pelo bem da produtividade e redução de custos, a indústria 4.0 precisa avançar no Brasil", afirma o presidente da ABDI, Guto Ferreira. Segundo estimativas da agência, a adoção de conceitos da quarta revolução industrial na matriz produtiva brasileira poderia gerar uma economia de R$ 73 bilhões ao ano, principalmente com redução dos custos de reparos e ganhos de eficiência. "A inovação deve ser pilar de desenvolvimento do Estado brasileiro."

Outras iniciativas recentes da ABDI envolvem a aproximação de indústrias e startups para que haja uma espécie de "injeções de ar fresco" na cultura corporativa. Em uma companhia, houve redução de cerca de 240 mil e-mails com a automação do processo logístico e diminuição de 15% de erros humanos nos processos, em um ano e meio de projeto.


Fonte: Valor-Brasil, por Daniel Rittner -Brasília, 27/05/2019