De uma maneira muito sumária, e talvez por isso mesmo um tanto cruel, o momento da sociedade brasileira pode ser descrito como um estado de desordem (ou desorganização numa versão mais branda) em diversas dimensões: macroeconômica, microeconômica, política e de ideias.

A desordem macroeconômica estabeleceu-­se à medida que três preços macro fundamentais para a economia ­ taxa de câmbio, juros e salários ­ permaneceram durante muito tempo longe de seu ponto de equilíbrio. Agravando a situação, o desajuste fiscal atingiu níveis insustentáveis. Aqui temos uma boa notícia: o processo de ajuste dessas variáveis está em andamento, mas ainda existe um caminho a percorrer. Talvez maior na taxa de câmbio e nos salários reais e menor no patamar dos juros básicos. No aspecto fiscal, certamente o desafio configura­-se hercúleo, todavia o mercado está preparado para considerar mais o esforço na direção correta que os resultados imediatos em si.

 A desordem na instância microeconômica configura­-se muita mais grave, porque é mais extensa e disseminada por diversos setores. Tomemos o caso da Petrobras. A não correção dos preços da gasolina e do diesel por quatro anos, combinada com um programa de investimentos vultoso, resultou num endividamento elevadíssimo. Agora a empresa precisa reavaliar o seu programa de investimentos que, associado ao escândalo de corrupção simplesmente, provocou uma paralisia na cadeia de fornecedores da empresa. Na energia elétrica, o realismo tarifário implantado este ano, ainda que corrija erros dos anos anteriores, provoca efeitos colaterais em termos de custos em muitos setores não só industriais, mas também no segmento de prestação de serviços.

A alavancagem dos bancos públicos é outro desafio a ser superado. O caso da Caixa Econômica parece ser o mais sério. Segundo dados de dezembro de 2014, os ativos totais da empresa montavam a R$ 1,06 trilhão para um patrimônio liquido de R$ 26,2 bilhões. Ou seja, numa medida menos sofisticada de alavancagem esta chega a 40 vezes! Daí nas últimas semanas a Caixa anunciou modificações para o financiamento de imóveis novos: antes emprestava até 80% do valor do imóvel e agora esta parcela caiu para 50%. O adquirente, portanto, terá que desembolsar à vista um valor 2,5 vezes maior que antes.

A construção civil já mostra sinais de forte desaceleração (segundo dados do Secovi, na cidade de São Paulo as vendas de imóveis novos entre janeiro e abril deste ano caíram 27% em relação a 2014 e os lançamentos na mesma comparação caíram 62%). Nesse contexto, a retração da oferta de crédito somente agravará um setor que gera muitos efeitos a montante e a jusante na sua cadeia se atividade, além de ser reconhecidamente de uso intensivo de mão de obra. Cedo ou tarde haverá a necessidade capitalização da Caixa.

 Voltando às consequências do desequilíbrio econômico-­financeiro imposto a Petrobras, existe o caso dos estaleiros contratados para entregar navios e plataformas que enfrentam dificuldades financeiras demandando aumento de capital de seus acionistas e, inclusive, já iniciaram uma fase de demissões para adequar a estrutura de produção. Aliás, a Petrobras precisa de um novo aumento de combustíveis, em especial na gasolina, se quiser manter a recuperação de resultados demonstrada no primeiro trimestre.

A lista de setores com problemas é extensa e cada qual provoca efeitos em termos geográficos muito diferentes e dispersos tornando a adoção de medidas mitigadoras uma tarefa muito complexa quando comparada às questões macroeconômicas.

A desordem na instância política prende­-se à natureza do poder. Houvesse uma primeira lei geral da política talvez ela tivesse um enunciado como segue: "a presença do poder tende a gerar forças centrípetas e, por oposto, sua ausência tende a gerar forças centrífugas". Num sistema que permite a existência de 28 partidos, a dispersão de forças atinge o limiar do inimaginável. E chegamos à desordem na instância das ideias que guarda evidentemente correlação com o item anterior. Alguns exemplos rápidos. A Comissão de Constituição e Justiça, da Câmara do Deputados, aprovou a admissibilidade do projeto de redução da maioridade penal para 16 anos. Ocorre que, pelas informações divulgadas pela imprensa, os crimes cometidos por menores de 18 anos correspondem a 1,6% do total; se considerados somente os crimes ditos hediondos, o percentual seria de 0,9%. Conclusão: a medida não combate 99% dos crimes! Sem considerar que os aliciadores de menores devem "ajustar" a idade de cooptação. Então, a medida resolve o quê, mesmo?

 No âmbito da reforma política ganha ímpeto a solução do "distritão". Aplicado ao Estado de São Paulo, um colégio eleitoral de 32 milhões de eleitores seria dividido em 70 distritos com uma média aproximada de 460 mil eleitores por distrito. Cada distrito elege um deputado. Um dos argumentos seria a maior proximidade entre eleito e eleitores. Num devaneio qualquer fico a imaginar o congressista tomando um cafezinho na padaria da esquina com 1% do seu eleitorado, ou seja, 4.600 pessoas. E há coisas piores, mas felizmente o espaço está acabando. Piadas à parte, a última eleição parlamentar no Reino Unido deu um exemplo do tipo de distorção que o sistema distrital pode provocar: o partido UKIP teve 12,6% dos votos e elegeu apenas um deputado num total de 650.

Duas palavras finais: a) dado o tamanho do imbróglio acima esboçado levará algum tempo para que surja um novo "polo magnético" que reoriente a "bússola" da sociedade brasileira rumo ao progresso (isso já aconteceu diversas vezes na nossa história) e b) creio que, nesta circunstância, um tanto a mais de cautela nas taxas de desconto usadas nos modelos de fluxo de caixa seria saudável. Em outras palavras, um pouco menos de euforia no apreçamento dos ativos, por favor.

Jorge Simino é diretor de investimentos e patrimônio da Fundação Cesp. E­mail: jorge.simino@funcesp.com.br

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Fonte: Valor Econômico, por Jorge Simino, 27/05/2015