Os juros futuros encerraram os negócios desta quarta-feira (26) em queda. O recuo também foi observado na taxa de câmbio, mas, na curva de juros, fatores técnicos também ajudaram a dar alívio.

A iniciativa do Tesouro Nacional de reduzir a participação de prefixados na dívida mobiliária neste ano já estava sendo precificada desde o início do dia. O movimento foi confirmado após a revisão do Plano Anual de Financiamento (PAF) ser divulgada e conter uma redução ainda maior que o esperado da fatia de prefixados.

No fim da sessão regular, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 passou de 4,99% no ajuste anterior para 4,98%; a do DI para janeiro de 2023 caiu de 6,71% para 6,65%; a do contrato para janeiro de 2025 recuou de 8,15% para 8,07%; e a do DI para janeiro de 2027 cedeu de 8,76% para 8,68%.

A revisão do PAF movimentou o mercado de juros nesta quarta. Após o anúncio do Tesouro, ontem, de que iria divulgar um novo plano, diversas casas revisaram seus cenários e passaram a considerar que o Tesouro diminuiria a fatia de prefixados na dívida e aumentaria a participação de papéis indexados à inflação, tendo em vista as ofertas bastante robustas de NTN-Bs mais recentemente. Assim, desde o início do pregão, a resposta da curva à possibilidade de redução da fatia de prefixados foi de queda firme das taxas.

“Desde manhã os DIs mostraram isso, já que o Tesouro sairia dessa meta agressiva de colocação de LTNs e passaria a aumentar a participação de outros títulos”, diz o economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez. A projeção da Ativa era de que a fatia de prefixados ficaria entre 34% e 38%. No PAF de janeiro, os limites de prefixados ficaram entre 38% e 42%. Já na revisão do PAF, divulgada nesta tarde, a faixa ficou entre 31% e 35%, bem abaixo do esperado.

Sanchez nota que, além de ter aumentado a fatia de participação dos papéis atrelados a índices de preços, o Tesouro elevou a fatia de papéis com taxa flutuante. “A perspectiva é de que haverá um avanço na colocação de LFTs. Era algo que não estava na conta de muita gente. Vamos ter um vencimento grande de LFTs em setembro e ele deve ser mais do que compensado”, afirma o economista da Ativa. Para ele, o Tesouro fez uma alteração de estratégia prudente nesse caso, tendo em vista os prêmios elevados das LTNs e com base na aposta de que pode haver uma ampliação da demanda por LFTs diante da perspectiva de elevação da Selic.

A queda das taxas futuras se deu, ainda, num contexto de um novo dia de queda dos preços das commodities e de recuo do dólar ante o real. O responsável pela estratégia para América Latina do Morgan Stanley, Andres Jaime, observa que, no geral, o mercado está “precificando um pouco demais” de prêmio na curva de juros. Para ele, é evidente que a situação fiscal do Brasil está pior do que antes, mas a política monetária e o regime de metas de inflação também se tornaram mais confiáveis.

“Então, para uma alta de juros como a que está precificada na curva, a barra deve ser bastante alta. Obviamente, tudo pode acontecer, mas somos um pouco céticos sobre isso”, afirma. Por isso, a recomendação do banco americano, atualmente, é de uma posição doada (aposta na queda) no juro do DI para janeiro de 2024. “O prêmio de risco na parte mais longa [da curva] provavelmente se justifica dado o lado fiscal, mas uma parte dele não é explicada por isso, então você também pode captar um pouco dele” com uma aposta na queda dessas taxas, diz.


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Victor Rezende e Felipe Saturnino, Valor — São Paulo, 26/05/2021