
Ao desacelerar a alta de 0,60% em abril para 0,44% em maio, a prévia da inflação de maio ficou abaixo do previsto pelo mercado, mas também trouxe sinais de pressão. Enquanto, de um lado, os preços de serviços entraram em terreno negativo e explicaram a maior parte do erro nas projeções, de outro, os bens industriais continuaram em trajetória de ascensão e acumularam alta de 7,44% em 12 meses — maior taxa desde abril de 2005 (7,53%), segundo cálculos da MCM Consultores, e acima da inflação cheia do período, que alcançou 7,27% este mês.
A mediana de estimativas de 31 analistas ouvidos pelo Valor Data previa aumento de 0,54% para o IPCA-15 de maio, divulgado hoje pelo IBGE. Segundo economistas, o resultado menor que o previsto pode desencadear revisões para baixo nas estimativas para o índice fechado do mês. Olhando à frente, porém, a expectativa de que os preços industriais continuem em patamar elevado e o cenário mais pressionado para tarifas de energia elétrica inspiram cautela, o que justifica manter as projeções para a inflação do ano acima de 5%.
A deflação de 28,85% das passagens aéreas foi a principal explicação para o IPCA-15 ter vindo abaixo do previsto em maio, mas não a única, diz Daniel Silva, economista da Novus Capital. A asset previa alta de 0,55% para a prévia da inflação oficial.
“Mesmo quando tiramos a influência das passagens aéreas da equação, tem uma mensagem positiva olhando a inflação de serviços, principalmente nos preços do aluguel, que também vieram abaixo do esperado. Então frente às expectativas, foi um bom IPCA-15”, afirmou Silva. Os preços de serviços recuaram 0,38% em maio, após aumentarem 0,18% em abril. Silva chama atenção para a variação negativa dos preços de aluguel e taxas, que diminuíram 0,09% no mês.
“Este é um sinal mais relevante para a inflação no médio e longo prazo, porque é um preço mais ligado ao desempenho da economia”, apontou. Para ele, o comportamento negativo desses preços não indica que há fraqueza no nível de atividade em geral, mas sim no mercado de trabalho. “Essa parte do desemprego vai continuar ajudando, ao menos no médio prazo, a manter a inflação de serviços bem ancorada e comportada, o que ajuda a compensar a alta dos bens industriais”, disse Silva.
Entre o IPCA-15 de abril e o de maio, a inflação de bens industriais acelerou de 0,46% para 0,99%, aumento que, de acordo com analistas, reflete restrições globais na cadeia de suprimentos do setor, assim como o baixo nível de estoques na indústria. Como esses choques não devem se dissipar nos próximos meses, a expectativa é que os preços industriais continuem em patamar incômodo.
“Os preços dos bens industriais subiram 1% em maio, bem acima da nossa projeção, de 0,58%”, comentou Tatiana Nogueira, economista da XP Investimentos. “A alta aqui foi bastante espalhada, com preços altos em artigos de residência, vestuário, automóvel novo e etanol”, apontou Tatiana, para quem a dinâmica inflacionária segue preocupante, apesar da surpresa favorável com o IPCA-15 do mês.
Ela também menciona o comportamento da média dos cinco núcleos de inflação acompanhados pelo Banco Central, que avançaram de 0,32% para 0,37% na passagem mensal, nos cálculos da XP. Em 12 meses, a alta passou de 3,6% para 4,1%, acima da meta de inflação do BC para o ano, de 3,75%, ressaltou. Por excluírem ou reduzirem o impacto de preços voláteis, essas medidas são mais sensíveis ao nível de atividade e à política monetária.
“O resultado do IPCA-15 de maio não muda nossa visão sobre a inflação, que ainda vai sofrer forte pressão nos próximos meses”, conclui Tatiana, embora a prévia menor que o esperado deva levar a revisões para baixo nas projeções para o índice fechado de maio.
Para Raphael Rodrigues, economista do banco BV, uma análise mais aprofundada do IPCA-15 aponta que o dado não foi tão bom como parece. “Por mais que os serviços, inclusive os subjacentes, continuem em trajetória de baixa, os preços industriais tiveram nova alta preocupante”, destacou Rodrigues.
O economista ainda menciona a evolução dos núcleos e do índice de difusão como outros fatores que chamaram atenção. O percentual de itens com reajuste no mês, que mostra quão espalhada a inflação está, avançou de 61,04% para 67,57% entre abril e maio. “O IPCA-15 mostrou piora sensível na dinâmica dos preços, combinando dados pontualmente baixos com outros estruturalmente preocupantes”, disse.
Pensando na inflação anual, a pressão de produtos industriais se sobrepõe ao nível comportados dos serviços, diz Silva, da Novus, que projeta alta de 5,5% para o IPCA em 2021 — acima do teto da meta, de 5,25%.
Como, pela metodologia do IBGE, a taxa de passagens aéreas registrada na prévia é repetida no indicador fechado do mês, o viés de alta na estimativa de 0,75% para o IPCA de maio foi eliminado, comentou Silva. “Essa projeção estava correndo risco de ir na direção de 0,80% a 0,85%, porque estamos vendo aceleração importante dos combustíveis, mas com essa surpresa de hoje, devemos manter o número”, explicou.
Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Arícia Martins, Valor — São Paulo, 25/05/2021

