A inflação voltou a ficar abaixo do esperado pelo mercado, uma constante desde o ano passado, e reacendeu o debate sobre a recente decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), que manteve a taxa básica de juros estável em 6,50% ao ano. Ao fazer essa opção, a autoridade monetária contrariou sinais que analistas interpretaram como mais um corte de 0,25 ponto percentual na Selic.

Conforme divulgado ontem pelo IBGE, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) desacelerou para 0,14% em maio, de 0,21% em abril. O resultado ficou bem abaixo do consenso dos analistas ouvidos pelo Valor Data, que previam aceleração para 0,26%. O indicador foi o mais baixo para o mês desde 2000 (0,09%).

No acumulado em 12 meses, a prévia do índice oficial de inflação recuou para 2,70%, de 2,80% do mês anterior. Desta forma, ficou mais distante do piso da meta de inflação, de 3% no ano - o centro da meta é de 4,5%, com margem de 1,5 ponto, para mais ou para menos. O mercado esperava aceleração do indicador para 2,83%.

Essa baixa da inflação na prévia de maio foi explicada pela perda de fôlego do grupo serviços, que teve rara taxa negativa no mês: 0,19%. Para economistas, a redução de preços reflete a recuperação mais lenta da atividade e o elevado grau de ociosidade na economia. A alimentação fora do domicílio recuou 0,28%, primeira baixa em mais de uma década.

"As pessoas ainda não estão consumindo serviços como antes, por exemplo, em restaurantes. É uma variação em linha com o indicador da atividade de serviços, ainda enfraquecido, frustrando neste início de segundo trimestre", disse Yan Cattani, economista da Pezco. Ele acrescentou que até esperava desaceleração desses preços, mas numa velocidade menor.

A baixa nos serviços compensou os a alta dos itens administrados - como são chamados os bens e serviços monitorados pelo governo. Esse conjunto de preços acelerou, na média, para 0,79% em maio, puxado por itens importantes no custo de vida das famílias, como remédios (1,04%), planos de saúde (1,06%), energia elétrica (2,18%) e gasolina (0,81%).

O aumento da gasolina de 0,81% na prévia de maio, a despeito de reajustes maiores nas refinarias, mostraria que a alta de alguns preços não está sendo repassada ao consumidor, diz Luiz Fernando Castelli, economista da consultoria GO Associados. Para ele, a surpresa em diversos itens pode levar
o BC a rever a sua política de juros.

"Esse resultado pode gerar uma compensação sobre a postura do Banco Central de manter a taxa de juros em 6,50%. Será que a decisão foi acertada? Será que não há mais espaço para queda de juros?", questiona Castelli, que previa o IPCA-15 em 0,30% no mês, mais do que o dobro da leitura divulgada pelo IBGE na manhã de ontem.

O economista Fábio Romão, da LCA Consultores, foi mais enfático. Para ele, o Banco Central errou ao manter a Selic em 6,50% ao ano, em vez de cortá-la em 0,25 ponto. "Estavam preocupados com pressões da depreciação do câmbio. Ainda que existam efeitos dessa desvalorização, fica evidente que há grande espaço para a inflação absorver choques", disse.

Um dos indicadores que demonstram isso é a inflação subjacente de serviços - que exclui itens como turismo e serviços domésticos, menos sensíveis à política monetária. Esse índice teve queda de 0,13% em maio, a primeira baixa mensal desde 2000. Em 12 meses, o indicador foi de 2,97%, abaixo do piso da meta de inflação, de 3%.

A avaliação não é unânime. Elson Teles, economista do Itaú Unibanco, concorda que a fraca atividade econômica pode atenuar o repasse da pressão do câmbio e do combustível na inflação, mas a transferência vai acontecer. Segundo ele, a gasolina deve ficar 2% mais cara em maio e 2% em junho, refletindo as altas nas refinarias.

Além disso, ele acha que a bandeira tarifária da conta de luz deve passar para vermelho - nível 1 em junho e nível 2 em julho, pressionando mais o índice. Dessa forma, a expectativa do economista é que a inflação brasileira acumulada em 12 meses acelere rapidamente para 3,80% em julho, aproximando-se do centro da meta.

"O BC tem consciência de que a situação deste ano está tranquila, mas já está olhando para 2019. A política monetária não tem mais efeito para 2018. Acho que 80% do foco estão em 2019. E a meta do ano que vem não tem mais folga. O câmbio depreciado pode influenciar em 2019, por exemplo, fertilizantes usados pelo agronegócio, o que pode ter impacto nos dos preços de alimentos", disse Teles.

Fonte: Valor - Macroeconomia, por Bruno Villas Bôas e Leila Souza Lima, 24/05/2018