O cenário político conturbado e as incertezas sobre a permanência do governo atual não tiraram o foco da Eletrobras do seu plano de reestruturação e de desinvestimentos. No entanto, o presidente da estatal, Wilson  Ferreira Junior, admitiu que os valores de seus ativos podem ser pressionados,
fazendo com que a companhia possa não concluir as transações nos preços que poderia atingir em uma situação mais estável.

"O ambiente político acaba arrastando o ambiente econômico", disse Ferreira, que participou ontem de um evento na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Ele contou que estava em Nova York na semana passada participando de um evento do Itaú BBA com investidores quando vazaram as primeiras informações da delação premiada de executivos da JBS, que implicaram o presidente Michel Temer.

Na quarta-­feira, antes da delação ser divulgada, o interesse dos investidores estrangeiros no setor elétrico brasileiro era muito grande. O cenário mudou no dia seguinte, quando havia muita dúvida e incerteza sobre o Brasil. "Se tivéssemos o ambiente de quarta­-feira, não haveria risco nenhum de se desfazer dos ativos, pelo contrário, havia muito interesse", disse Ferreira.

Com a condição atual, "talvez tenhamos uma dificuldade em fazer isso [vendas de ativos] nos preços que poderíamos conseguir", afirmou. Segundo Ferreira, o principal fator de atratividade para ativos de energia é o crescimento da economia. "Os ativos ficam mais valorosos com a melhora da
economia", disse.

Ainda assim, a Eletrobras não considera, neste momento, alterar sua meta de redução de endividamento. "A meta de desalavancagem foi estabelecida porque é a melhor alternativa, não deveríamos colocar o processo em risco a não ser que não tenhamos interessados pelos ativos. Mas, sinceramente, pelo tipo de ativos que temos, importantes e já gerando caixa, não teremos problemas", disse.

A Eletrobras planeja obter R$ 4,6 bilhões com seu plano de venda de ativos ainda neste ano. O plano é essencial para que a estatal atinja sua meta de redução de endividamento para uma relação entre dívida líquida e Ebitda de 4 vezes. Ao fim de março, a alavancagem estava em 5,7 vezes.

Uma questão muito importante para a Eletrobras foi esclarecida ontem, quando o ministro de Minas e Energia, Fernando Coelho Filho (PSB­PE), anunciou que vai continuar no comando da pasta, apesar do rompimento de seu partido com o governo federal.

"O ministro é obviamente muito importante, ele tem a capacidade de integração dos agentes, tem boas ideias. Evidentemente eu torço para que ele continue, assim como o presidente Temer, porque essa é uma agenda dos novos tempos e os dois são importantes", afirmou Ferreira na manhã de ontem, antes do anúncio da decisão do ministro. Segundo Ferreira, seu compromisso continua sendo com o trabalho de reestruturação da companhia e com o seu mandato no comando da estatal, que vai até abril de 2019. "Eu vim para fazer um trabalho de resgate e reestruturação da Eletrobras que está em curso nos dias de hoje", disse.

Ferreira, que foi convidado para comandar a Eletrobras pelo ministro Coelho Filho, a pedido do presidente Michel Temer, destacou que já conseguiu alcançar bons resultados na estatal desde sua posse, em julho do ano passado.

"Revertemos o prejuízo anual para lucro, no trimestre a mesma coisa, oferecemos uma ação importante de redução de custos, estamos com um plano para aposentadoria, privatizamos uma companhia [a Celg­D ], temos planos de vendas de ativos, fizemos muito em termos de governança", disse ele. "Então, obviamente meu compromisso é com meu mandato e com o projeto de reestruturação", completou.

Segundo ele, a Eletrobras pode ser vista como um "sintoma dos problemas estruturais do setor", mas as ações implementadas até agora pelo governo foram acertadas e resultaram em fortes ganhos para as empresas. "Para o setor, é importante que eles continuem", disse Ferreira.


Fonte: Valor - Empresas, por Camila Maia, 24/05/2017