A sinalização do Banco Central na ata do Comitê de Política Monetária (Copom) de que há espaço para evitar alta da taxa Selic coincidiu com um dia de amplo alívio nos mercados, com aumento da demanda por ativos de risco também no exterior. O resultado foi uma queda firme dos juros futuros.
Os investidores conseguiram reverter parte da alta dos últimos dias, e a leitura é que boa parte da melhora foi importada, embora o foco ainda esteja na política monetária. No fechamento, a taxa do DI para janeiro de 2020, que reflete as apostas para Selic no fim de 2019, caiu 7 pontos, para 7,52%.
Desta vez, o BC usou a ata da última reunião do Copom para destacar que os choques externos devem ser combatidos apenas nos impactos secundários sobre inflação. Portanto, não haveria relação mecânica entre o cenário externo e a política monetária.
Para o economista-chefe da JGP Gestão de Recursos, Fernando Rocha, a autoridade monetária não se comprometeu com os próximos passos. Assim, busca evitar um ruído de comunicação, que marcou a sua última decisão de juros, quando surpreendeu boa parte dos analistas com manutenção da Selic em 6,5%. "O BC não se comprometeu daqui para frente e, por ora, vê que pode manter juro parado", diz.
As expectativas, contudo, são bastante suscetíveis ao comportamento do câmbio, com risco de antecipação do aperto. Na JGP, o valor médio do dólar esperado para o ano que vem é de cerca de R$ 3,60 e inflação, de 4,3%, o que ajudaria a manter a Selic estável até meados de 2019. Mas, se o dólar subir para R$ 4 (o equivalente a 10% de desvalorização do real), o IPCA ficaria em 5,10%. "Aí tem de subir juro, porque a meta é 4,25% no ano que vem", diz Rocha.
Deve pesar para as próximas decisões o comportamento das diferentes medidas de repasse cambial, na avaliação de especialistas do Itaú, que ainda aposta em manutenção da Selic em 2018.
Por ora, a leitura é de que não é o caso de o BC subir juros tão cedo. A mensagem reiterada na ata do último encontro é que a política monetária deve ser descolada de um impacto direto do câmbio. E, com isso, o BC busca "desfazer qualquer sinal muito ′hawkish′ [favorável a juros altos] que tenha sido deixado pelo comunicado da última reunião", na avaliação do sócio e gestor da Paineiras Investimentos, David Cohen.
A economista-chefe da ARX , Solange Srour, vai na mesma linha: "o BC contribuiu para tirar qualquer especulação no mercado de que poderia fazer uma alta de juros em breve". "Hoje, eu vejo que os fundamentos internos e um câmbio no patamar atual, de R$ 3,60, não deve adiantar o ciclo", diz. Contudo, todas as projeções podem mudar já que a disputa eleitoral é repleta de incertezas no Brasil.
Para a equipe de pesquisa econômica do Bradesco, liderada pelo economista-chefe Fernando Honorato, o BC pode manter o juro por mais tempo que o esperado, se a recuperação da atividade seguir frustrando e se entrarmos em um ambiente de maior estabilidade da taxa de câmbio.
Outro recado importante da ata, segundo profissionais de mercado, é que a decisão não estará amarrada por uma sinalização anterior quando houver uma mudança relevante no meio do caminho. "O que cabe ao BC é dar sinalização, na medida do possível, que direcione um pouco as expectativas e não haja surpresas grandes, com volatilidade no mercado", diz Rocha, da JGP.
Fonte: Valor - Finanças, por Lucas Hirata, 23/05/2018

