O IPCA-15, referente a maio, último indicador de peso antes da reunião do Copom, consolidou a ideia que já vinha ganhando força no mercado: a desaceleração da inflação permitirá que o Banco Central cumpra seu plano de voo e interrompa, já na reunião deste mês, o ciclo de aperto monetário.
O fortalecimento dessa aposta derrubou os juros futuros ontem. O DI de janeiro de 2017 encerrou o dia a 11,92%, de 12,01% da véspera. O DI de janeiro de 2016 cedeu de 11,70% para 11,62%, enquanto DI para janeiro 2015 fechou a 10,93%, de 10,94%. Assim, a chamada inclinação da curva a termo - diferença entre os contratos mais curtos e os mais longos, que demonstra o tamanho do prêmio de risco que o investidor exige para carregar posições mais longas - diminui de forma expressiva. Entre os contratos janeiro/2015 e o janeiro/2017, esse degrau caiu para 0,99 ponto, o menor nível desde 18 de novembro de 2013.
O IPCA-15 subiu 0,58% em maio, ligeiramente acima da média das projeções colhidas pelo Valor Data, de 0,54%, mas dentro do intervalo das estimativas, de 0,45% a 0,60%. Em relação a abril, quando a inflação alcançou 0,78%, a desaceleração foi relevante.
Quando se olha para o acumulado em 12 meses, o número ainda é preocupante: 6,31%. Mesmo assim, o dado mensal dá força à corrente do mercado que espera estabilidade da Selic na semana que vem. Isso porque, em abril, no comunicado de sua decisão de elevar a Selic em 0,25 ponto para 11%, o Copom avisou que iria monitorar a evolução do cenário macroeconômico até a próxima reunião, para definir os próximos passos". A comunicação que veio a seguir mostrou que, na visão do BC, a piora da inflação se devia a um choque de oferta de alimentos - que precisaria ser monitorado para que não fosse disseminado. Mas que a autoridade monetária ainda contava com o efeito defasado de sua política sobre os preços.
O que aconteceu desde então foi uma desaceleração mais intensa do que boa parte do mercado esperava dos preços dos alimentos. Isso foi observado tanto nas coletas diárias, quanto no IPCA de abril. O indicador, talvez o principal "driver" da virada das apostas do mercado, mostrou alta de 0,67%, abaixo do que o mercado esperava, 0,79%, segundo a média das projeções. E também bem abaixo do resultado de março, de 0,92%.
Surpresas também vieram do lado da atividade, o que só reforçou a ideia de que o BC deve parar para ver o que a alta de 3,75 pontos na Selic deve produzir na economia. Nesse campo, foram decisivos os dados de emprego, divulgados ontem, com a criação líquida de 105.384 vagas, o pior desempenho para o mês desde 1999. Também tiveram grande relevância as vendas no varejo e o IBC-Br. Números que geram uma onda de revisões nas estimativas para o desempenho no PIB neste ano. Na pesquisa Focus, a mediana das projeções já está em 1,62% para 2014. Os dados de confiança apontam para a mesma direção.
O cenário externo também ajudou o BC. Nas nove semanas que se passaram desde a última reunião do Copom, cresceu no mundo a ideia de que o processo de normalização da política monetária americana se dará de forma muito mais gradual do que se previa. Mais do que isso, novos estímulos vindos da Europa estão na pauta. E, com isso, os juros dos Treasuries - variável fundamental para determinar o apetite por risco no mundo - caíram de forma expressiva. Em 1º de abril, quando começou o encontro do Copom, a T-note de 10 anos era negociada a 2,760% e agora oscila ao redor dos 2,50%.
O dólar, por sua vez, acumula queda de mais de 2% no período: a cotação cedeu do patamar de R$ 2,260 para os atuais R$ 2,21. Mais do que a taxa em si, ficou mais evidente no mercado que o potencial de desvalorização cambial é menor, o que gera, inclusive, a discussão sobre a necessidade de continuidade do programa de oferta de swap cambial pelo Banco Central.
O que pesa contra a estratégia da autoridade monetária, entretanto, são as expectativas para a inflação, que desafiam o teto da meta para o ano. Na última edição da Focus, o mercado projetava uma taxa de 6,43% para o IPCA deste ano e de 6% para 2015. Entre os Top 5, grupo das instituições que mais acertam, a previsão está em 6,62% em 2014 e em 6,35% para 2015.
Fonte: Valor, Lucinda Pinto, 22/05/2014

