É precipitado relaxar restrições à mobilidade urbana no momento em que o Estado de São Paulo tem alto índice de casos e mortes por covid-19 e UTIs ainda lotadas, alertam especialistas. Na visão de médicos e técnicos que acompanham os indicadores da pandemia, qualquer avaliação nesse sentido não corresponde à realidade sustentável, principalmente diante do lento progresso da vacinação e da ameaça de cepas do coronavírus, como a indiana, já oficialmente registrada no Brasil.
Na quarta-feira, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), anunciou mais alguns passos em direção à flexibilização das restrições. A partir do dia 24, a capacidade de lotação dos estabelecimentos passa de 20% para 40%, e a partir de 1º de junho, o limite passa a 60%, com o funcionamento de galerias, shoppings, restaurantes, academias, cinemas, teatros e museus permitido até 22h.
“Acho temerário dizer que os números estão se estabilizando, porque estão em patamar muito alto. Não se pode naturalizar esse nível de mortes”, observa Gerusa Figueiredo, epidemiologista e professora do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP e integrante do grupo Ação Covid-19.
Para ela, a narrativa sobre “ondas” da covid-19 e o relaxamento das restrições passa à população falsa impressão de melhora. Em São Paulo, tanto a média de casos quanto a de mortes estão maiores que no pior momento do ano passado, embora tenham arrefecido dos recordes em abril. “É muito ruim se fiar em diminuições momentâneas.”
Segundo dados do Consórcio Nacional de Secretários de Saúde (Conass), a média móvel de sete dias de casos notificados subiu 11%, de 11.719 para 13.025, entre os dias 12 e 19. A de mortes caiu ligeiramente, de 521 para 499. As UTIs do Estado beiram 80% de ocupação, proporção que tem se mantido estável nas últimas semanas. Os números são considerados dentro da faixa de estabilidade.
“Não tenho problema com o relaxamento do isolamento, desde que haja condições reais para isso. O que vemos hoje é apenas uma vontade de voltar ao normal”, diz Hélio Bacha, consultor técnico da Sociedade Brasileira de Infectologia, ao citar as altas na ocupação de UTIs na rede privada do Estado em 15 dias.
Para Bacha, os parâmetros que têm definido decisões em muitos Estados e cidades guardam relação apenas com o “desejo” político dos gestores públicos de que espelhem a realidade. Ele observa que a solução mais esperada para a crise sanitária é a vacinação. Mas lembra que o Brasil ainda enfrenta dificuldades para avançar na estratégia e agora a ameça das variantes.
Para a professora Gerusa, o fato de cerca de 20% da população do Estado já ter tomado a primeira dose da vacina não implica que nova “onda” seria mais branda. Segundo ela, grande parcela dos cidadãos é suscetível, ainda que boa parte já tenha anticorpos contra o coronavírus.
Iniciativa de cientistas e médicos, com o apoio do Grupo Fleury, IPEC (antigo Ibope), Instituto Semeia e Todos pela Saúde, lançado pelo Itaú Unibanco, sondagem mostrou que perto de 42% dos moradores da cidade São Paulo já tiveram covid-19, o que em tese lhes daria imunidade. “Temos que lembrar que antes do surgimento da variante P.1, estudo feito em Manaus mostrava que cerca de 65% dos moradores já haviam contraído o coronavírus”, diz ela.
Segundo o Conass, casos notificados de covid-19 voltaram a subir em 19 Estados, pela média móvel de sete dias. Oito registram aumento na média de mortes. Em São Paulo, a média de casos cresceu 11% e a de óbitos está praticamente estável (-0,8%).
A reportagem questionou a Secretaria estadual de Saúde sobre o relaxamento das restrições, mas não recebeu resposta até a conclusão desta edição.
Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Leila Souza Lima e Ana Conceição — De São Paulo, 21/05/2021

