Embora 77% da base instalada de sistemas de gestão empresarial (ERP, na sigla em inglês) já esteja concentrada em três empresas -- Totvs, SAP e Oracle - o segmento tente a se consolidar ainda mais nos próximos anos, aponta a Pesquisa Anual Sobre Uso de Tecnologia nas Empresas, da Fundação Getulio Vargas.

O estudo foi realizado com 2.636 respostas válidas de profissionais de tecnologia de empresas brasileiras, entre agosto de 2020 e maio deste ano.

 

“O movimento deve ocorrer tanto por meio de aquisições de empresas de menor porte, como pela mudança nos sistemas de gestão de grandes empresas que ficarão mais adaptáveis a segmentos específicos de serviços, comércio e indústria”, diz Fernando Meirelles, professor do Centro de Tecnologia de Informação Aplicada da FGV e coordenador da pesquisa.

Os outros 33% do mercado de sistemas de gestão integrados estão com empresas de menor porte como Senior Sistemas, MV, Infor, exceto pela participação da Microsoft, na categoria outros. “Algumas das empresas brasileiras certamente já passaram pelo radar da Totvs”, nota Meirelles.

Quando fala da transformação da “espinha dorsal” dos sistemas de gestão, Meirelles vê um segmento formado por diversos pequenos fornecedores de softwares bastante específicos, que se encaixem facilmente em grandes ERPs. “Um software de gestão pesado como o da SAP não vai conseguir chegar sozinho a um varejista de tecidos da Rua 25 de Março [em São Paulo]”, ilustra o professor.

Para Mirelles, a SAP tem mais facilidade de se encaixar à nova realidade do que a Totvs. “Como o sistema de gestão da Totvs veio da aquisição de ERPs como Datasul, Microsiga e RM, o desafio é maior”, afirma. A vantagem da Totvs, por outro lado, é estar mais perto das pequenas empresas do que a rival alemã.

Embora Totvs e SAP estejam empatadas na primeira posição, com 33% da base instalada cada uma, a SAP lidera em grandes corporações, com 50%. Já entre pequenas empresas, a Totvs registrou a maior fatia (34%) em 2020.

Meirelles destaca ainda que o sistema de gestão é o “coração” na transformação digital nas empresas e recomenda que as organizações gastem boa parte dos seus investimentos em substituir, renovar ou reimplantar o sistema de gestão atual. A versão “pós-moderna” do ERP, como diz a pesquisa, está mais integrada à demanda dos negócios digitais para a computação em nuvem e o modelo de software como serviço.

Em 2020, a média de gastos e investimentos das empresas brasileiras com tecnologia foi de 8,2% da receita líquida, ou R$ 610 bilhões no ano passado, um avanço de 4,4% sobre a soma de 2019, quando as empresas dedicaram 8% receita líquida para tecnologia. A projeção é de que o volume chegue a 8,5% da receita das empresas de três a quarto anos.

Embora a elevação de um ano para outro tenha sido de apenas 0,2 ponto percentual da receita destinada à tecnologia, o professor da FGV afirma que as empresas investiram muito mais na digitalização dos negócios por conta da pandemia.

Os recursos destinados à tecnologia compreendem todos os investimentos, despesas e verbas alocadas à área, incluindo software, equipamentos, manutenção, treinamento e pessoas.

A pesquisa também avaliou os softwares mais usados na rotina das empresas. Em sistemas operacionais, correios eletrônicos e navegadores, a Microsoft manteve o domínio em 2020, mas perdeu espaço em videoconferência para Zoom e Google.

Em antivírus, a base das empresas é bastante fragmentada, com liderança da Intel, seguida por Symantec e Microsoft.

Meirelles notou que cibersegurança não foi uma preocupação citada pela maioria das empresas ouvidas.


Fonte: Valor Econômico - Empresas, por Daniela Braun — De São Paulo, 21/05/2021