As incertezas criadas pelas denúncias contra o presidente Michel Temer vão prejudicar a recuperação da economia, um processo que havia se iniciado no primeiro trimestre. A possibilidade de o Produto Interno Bruto (PIB) cair pelo terceiro ano seguido se tornou bastante realista, ao mesmo tempo em que o ciclo de corte dos juros pode ser menos ambicioso do que se vislumbrava, especialmente devido à maior pressão sobre o câmbio.
Com a notícia de que de que uma gravação de Joesley Batista, da JBS, mostraria o presidente Michel Temer dando aval para comprar o silêncio de Eduardo Cunha (PMDBRJ), o andamento das reformas no Congresso deve ser adiado, na melhor das hipóteses, afetando a confiança e, com isso, retardando especialmente a volta do investimento.
Para o economista-chefe da Gávea Investimentos, o ex-ministro Edward Amadeo, a recuperação da economia fica em risco porque há uma percepção mais disseminada de que a retomada só é sustentável se o governo ajustar as suas contas, "o que não é fácil". Nesse quadro, a avaliação de que "o encaminhamento das reformas ficou muito comprometido" explica a reação abrupta do mercado, com a alta do risco-país, do dólar e dos juros e a queda
das bolsas.
A Tendências Consultoria colocou viés negativo em suas projeções para a atividade econômica neste e no ano que vem diante da incerteza criada pelas denúncias contra Temer. Até ontem, a consultoria previa crescimento de 0,3% para o PIB de 2017 e alta de 2,8% para 2018. "Claramente, o risco de Temer não terminar o mandato aumentou significativamente, assim como o de não sair a reforma da Previdência. São riscos atrelados", diz Alessandra Ribeiro, economista responsável pelas áreas de macroeconomia e política da Tendências. Dada a pressão que a alta do dólar terá sobre a inflação, ela também vê menos espaço para o BC reduzir juros.
Tal cenário, prevê Alessandra, terá efeitos negativos para a atividade econômica: afetaria principalmente a confiança do empresário, desanimado tanto pelos juros e pela eleição de um governo transitório, quanto pela grande incerteza em relação, a partir de agora, às eleições de 2018. "Corte de 1,25, 1,5 ponto [percentual] na próxima reunião [de maio] esquece, está fora. Queda de 1 ponto ainda está no jogo, mas ele pode até pensar em diminuir para 0,50 ponto", prevê.
Sócio da 4E Consultoria, Juan Jensen, tem uma avaliação parecida. Para ele, as denúncias contra Temer "colocam a recuperação econômica em xeque" nos dois próximos anos e devem fazer o Copom diminuir o ritmo no corte dos juros. "Isso limita o processo de recuperação até 2018", diz ele, citando as incertezas que ficam para empresários e consumidores.
A 4E estava na ponta mais pessimista das consultorias e instituições financeiras, esperando retração de 0,1% do PIB neste ano, justamente em função de turbulências políticas que poderiam atrapalhar a retomada. A ideia da consultoria era rever esse resultado para alta de 0,1% neste ano, por causa dos dados do primeiro trimestre, mas as denúncias fizeram a consultoria abortar esse plano.
"Agora, a tendência é o dólar ir para cima e, a médio prazo, isso ter impacto na inflação", diz Jensen, para quem o Copom vai continuar cortando juros, mas em um ritmo menor. "A inflação está muito baixa, nós temos gordura", diz Jensen, que calculava que a Selic estaria em 8,25% no fim do ano. Agora, é mais provável que ela fique em torno de 9%, afirma ele, que ainda não tem uma estimativa exata. Hoje, a taxa está em 11,25% ao ano.
Alessandra, da Tendências, também acredita que os juros tendem estacionar na casa de 9%. Nos últimos dias, parte do mercado tinha passado a apostar num cenário de cortes mais agressivos, que poderiam levar a Selic para perto de 7%.
Se a incerteza continuar elevada, pressionando o câmbio e os juros mais longos, "o BC poderá ter que repensar a sua estratégia", avalia também Amadeo. Nesse cenário, a perspectiva de queda forte da Selic neste ano pode ficar ameaçada.
Para Fabio Silveira, sócio-diretor da Macro-Sector, a denúncia feita ontem contra o presidente Michel Temer custou aproximadamente três meses de recuperação ao Brasil, na melhor das hipóteses. Na pior, pode criar um cenário não só de contração da atividade, mas também de desvalorização do câmbio e de um agravamento ainda maior do quadro fiscal. Por enquanto, avalia ele, o início de retomada, que vinha se desenhando nas últimas semanas, ainda não foi totalmente abortado.
Para Silveira, o processo de escolha do substituto de Temer, que não teria mais condição de governar, atrasará a retomada da atividade, mesmo que um novo presidente seja escolhido rapidamente. "Se a gente perder junho, julho, já se vão três meses de recuperação", afirma. Depois de um crescimento mais forte no primeiro trimestre, que vários analistas estimam ter ficado acima de 1% em relação ao trimestre anterior, a expectativa já era de uma desaceleração no período de abril a junho, com alguns bancos e consultorias projetando até mesmo um número negativo. Com a incerteza provocada pela denúncia contra Temer, a possibilidade de uma queda no segundo trimestre aumentou.
Silveira diz que dificilmente o dólar vai ficar abaixo do patamar de "R$ 3,30 ou R$ 3,40" até o começo de junho. "Não dá para encontrar um substituto em duas semanas." Em um prazo mais longo, ele também estima que o Copom diminuirá o ritmo do corte da taxa Selic.
Amadeo destaca que o mercado trabalhava com uma sequência na cabeça. Haveria primeiro a aprovação da reforma da Previdência, depois o processo eleitoral de 2018 e a agenda para o novo governo a partir de 2019, entre os principais elementos. Com a nova crise, isso entra obviamente em xeque e o tema da sucessão presidencial acabou sendo antecipado.
"As perspectivas das reformas são piores do que antes", reitera o economista, lembrando que se trata de uma agenda impopular, num momento em que "a população está estressada, e com bons motivos, como o desemprego, a perda de renda, a insegurança e a piora na qualidade dos serviços públicos", diz Amadeo
Fonte: Valor - Macroeconomia, por Sergio Lamucci, Ligia Guimarães e Estevão Taiar , 19/05/2017

