A decisão do Banco Central de manter a Selic inalterada em 6,50% ao ano pode não acelerar uma eventual queda do spread bancário e das taxas ao consumidor, mas também não atrapalha. O ritmo lento de transmissão da redução do juro básico para o crédito vem, em grande parte, da cautela dos bancos com o risco eleitoral, reforçado pelas incertezas externas, dizem analistas.

O economista da 4E, Bruno Lavieri, ressalta que o processo de transmissão do recuo da Selic tende a ser freado e o spread pode até mesmo subir com as incertezas políticas. "A transmissão positiva da Selic tende a ser um pouco mais lenta ou oscilar em alguns momentos por conta do risco eleitoral, mas, após a votação, se o cenário for de continuidade de reformas, deve acelerar", afirma.

De acordo com a diretora de macroeconomia e política da Tendências, Alessandra Ribeiro, "no curto prazo, na verdade, o custo de captação para os bancos até sobe um pouco porque ocorreu um ajuste da curva de juros futura para cima". A economista pondera, no entanto, que, mesmo nessas condições, o spread bancário mantém a perspectiva de queda devido à conjuntura favorável, com retomada do crescimento, melhora da inadimplência e maior demanda de crédito.

Os efeitos do processo de transmissão da baixa da Selic, explica Alessandra, ainda vão demorar meses para serem sentidos. "O ciclo de transmissão ainda não se completou. Foram 775 pontos-base de corte e o grosso do efeito ainda está por vir."

A economista calcula um período de seis a nove meses para o impacto da redução de juro ser plenamente sentido no spread e na taxa ao consumidor. "Pelos modelos, para a queda da taxa bater na atividade econômica, a gente está falando no fim do ano e começo de 2019", afirma.

Na visão da economista-chefe da Rosenberg, Thais Zara, a curva de juros futura reagiu ao Copom ontem, mas o movimento da ponta longa reflete mais as incertezas ligadas ao plano eleitoral. "O comportamento da curva longa está mais ligado a questões fiscais, passando pelas eleições e preocupações sobre se a agenda vencedora vai prover suporte necessário às contas públicas", diz.

Para a especialista, a falta de certezas relacionada ao pleito tende a elevar os juros nos próximos meses e reforçar a depreciação do real. "No meio do caminho tem as eleições, que podem elevar o prêmio e trazer ainda mais volatilidade ao câmbio."

Conforme Thais, "a gente está passando por uma acomodação de preços relativos no mundo, com o dólar se fortalecendo globalmente". Por isso, acrescenta a economista, "a volatilidade deve durar algum tempo até o câmbio atingir um novo equilíbrio".

Lavieri, da 4E, também vê o excesso de volatilidade como transitório. "Na medida que o risco eleitoral se dissipar, o real voltará a apreciar um pouco."

Fonte: Valor - Finanças, por Sérgio Tauhata , 18/05/2018