Os resultados das companhias abertas no primeiro trimestre foram melhores do ponto de vista operacional, mas com margens de lucro praticamente estáveis, o que desapontou em alguns casos. O comportamento confirmou a expectativa de recuperação econômica mais lenta no período. Ainda assim, por conta de uma base de comparação muito fraca, o lucro líquido agregado das empresas cresceu 15,8% em termos nominais, na comparação anual.
Para este trimestre e os demais, o temor dos especialistas é quanto à retomada tímida dos negócios e, sobretudo, o impacto da alta do dólar sobre as dívidas em moeda estrangeira.
O levantamento do Valor Data incluiu 263 companhias de capital aberto e não financeiras, totalizando um lucro final, atribuído aos controladores, de R$ 20,3 bilhões de janeiro a março. A reportagem optou por desconsiderar os números das gigantes Petrobras, Vale e Eletrobras, para não distorcer a visão geral da situação das outras empresas. Se fossem incluídas, a evolução do lucro seria substancialmente menor, de apenas 3,7%.
Houve um avanço de 10,6% da receita líquida, para R$ 350,2 bilhões, no comparativo anual. Em termos anualizados, as vendas aumentam 2,4% ante o quarto trimestre de 2017. Naquele período, no entanto, a receita havia subido 3,3% contra o trimestre imediatamente anterior.
A desaceleração ocorreu entre as empresas diretamente ligadas ao consumo doméstico e ficou nítida nas margens estáveis, avaliou Karel Luketic, chefe da área de análise da XP Investimentos. "Em linhas gerais, os resultados decepcionaram com margens mais fracas do que o esperado pelo mercado, principalmente dos nomes ligados à atividade econômica", afirmou.
Pelo acompanhamento do Valor, a margem bruta do total das empresas analisadas ficou estável em 27,5% no primeiro trimestre, e a margem Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) subiu apenas 0,3 ponto percentual, para 18,6%.
De acordo com analistas, os dados mais fracos da indústria, comércio e serviços já se refletem no Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-BR), uma espécie de prévia do PIB, registrou retração de 0,13% entre janeiro e março em relação ao quarto trimestre de 2017. É o primeiro resultado negativo desde o último trimestre de 2016. Outro sinal de perda de impulso no crescimento do consumo veio da piora no índice de empregos, como reflexo da racionalização de custos pelas companhias. O desemprego no país foi de 13,1%, em média, no primeiro trimestre, de acordo com dados do IBGE. É a maior taxa de desemprego trimestral do Brasil desde maio do ano passado, quando o índice foi um pouco superior e atingiu 13,3%.
O levantamento do Valor mostrou ainda que o Ebitda, geralmente usado para medir o desempenho operacional das companhias, cresceu 12%, para R$ 62,1 bilhões no trimestre. Os analistas observaram que as vendas e o desempenho operacional foram positivamente impactados por melhorias comerciais e iniciativas de marketing.
Carlos Eduardo Rocha, sócio e responsável pela asset do Brasil Plural, afirmou que como "não há um grande crescimento no Brasil", o desempenho positivo está muito específico na estratégia das empresas. "Algumas companhias têm crescimento próprio e estão menos dependentes de influências externas", afirmou. Para ele, isso é importante para garantir a sobrevivência, especialmente em ano eleitoral como em 2018.
Rocha mencionou, por exemplo, a gestão da locadora de automóveis Localiza, que priorizou o crescimento orgânico ante fusão e aquisições e buscou diversificar clientes, e a estratégia do Magazine Luiza de integração de lojas físicas e internet. No caso da locadora de automóveis, houve um aumento de 36% na receita, 34% no Ebitda e de 46% no lucro. Já a varejista, apresentou receita 29% maior, Ebitda com alta de 33% e avanço de 152% no ganho líquido.
Outro exemplo é a Estácio, que encontrou dificuldades com a redução do financiamento estudantil (Fies) e buscou criar um programa de parcelamento de mensalidades para atrair alunos, além da expansão de ensino a distância (EAD). A companhia de educação apurou incremento de 14% da receita, 54% no Ebitda e de 62% no lucro.
Para os próximos meses, no entanto, as preocupações gerais quanto ao ritmo da retomada econômica ganharam um componente importante: o câmbio. Enquanto a moeda americana subiu apenas 0,5% de janeiro a março, a alta verificada do início abril até o dia 16 de maio era de 10,7%. Em março, a cotação era de R$ 3,32. O patamar agora é na casa dos R$ 3,60 a R$ 3,70.
Segundo especialistas, o dólar deve seguir pressionado, principalmente em razão das incertezas quanto às eleições no país e pelo conturbado ambiente externo. Na pesquisa Focus do Banco Central, a projeção máxima é de que o dólar chegará a R$ 3,81 em outubro, quando acontece o primeiro turno eleitoral.
A pesquisa do Valor revelou que a dívida financeira líquida de um universo de 228 companhias aumentou 5,6% no fim de março deste ano ante igual mês de 2017, alcançando R$ 496,2 bilhões. Apesar do volume maior, confrontando as obrigações com o Ebitda anualizado, o nível de alavancagem das empresas mostra melhora no comparativo anual, passando de 2,20 vezes para 2,09 vezes. O indicador mostra que a geração de caixa cresceu mais que o endividamento.
"Para o segundo trimestre, a alta do dólar ante o real deve beneficiar as exportadoras de celulose. Por outro lado, as companhias aéreas devem ser penalizadas com o aumento do custo dos combustíveis e alta também do preço do petróleo", destaca Luketic, da XP Investimentos.
Fonte: Valor - Empresas, por Paula Selmi e Marcelle Gutierrez , 18/05/2018

