O alívio na taxa de câmbio visto na abertura dos negócios de ontem teve vida curta - mais precisamente 73 minutos. Já na segunda hora de pregão o dólar voltou a subir, acelerando os ganhos no fim da manhã e fechando a R$ 3,7015 (alta de 0,61%), maior patamar em 26 meses. Na máxima, a cotação bateu R$ 3,7131.

Uma medida do grau de incerteza sobre a taxa de câmbio foi ao maior patamar em quase um ano. A volatilidade implícita de um mês da taxa dólar/real alcançou 14,275% ao ano, máxima desde o período entre o fim de maio e começo de junho de 2017.

O novo dia de desvalorização cambial contrariou expectativas de profissionais do mercado. Ainda na quarta-feira à noite, após a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), contratos futuros de real negociados na Bolsa Mercantil de Chicago (CME, na sigla em inglês) indicavam valorização da moeda brasileira de cerca de 0,8% ante o dólar.

Mas o que se viu foi o dólar subir pelo quinto pregão consecutivo. E essa reação de preço serviu para reforçar as dúvidas sobre o espaço para uma correção de baixa nos próximos meses, a despeito da alta de 18% de um ano para cá. A percepção é que o cenário para a taxa de câmbio segue mais no sentido de desvalorização do que de um alívio consistente.

Na pesquisa Focus do Banco Central, há apostas de que o dólar chegará a R$ 3,81 no mês de outubro, quando ocorrerão as eleições presidenciais. E essa estimativa está em alta. No começo de maio, por exemplo, a cotação máxima esperada para outubro não passava de R$ 3,70, um centavo abaixo da taxa alcançada já ontem.

Para alguns analistas, já é hora de o Banco Central reforçar a atuação para defender o real.

Roberto Campos, gestor sênior de câmbio da Absolute Investimentos, entende que ficou constatado o "caminho livre" para os "comprados" em dólar - aqueles que apostam na alta da moeda. Segundo o gestor, é de chamar atenção que, mesmo não liderando as perdas globais, o real ainda tenha se depreciado 0,61%, apesar de o BC ter mantido a Selic estável. "O BC precisa suavizar esse movimento de queda do real. A dinâmica negativa não foi quebrada", afirma.

A despeito da força do dólar ontem, o Banco Central preferiu manter, para hoje, a oferta de 5 mil contratos "novos" de swap cambial. A expectativa é de uma injeção total de liquidez de US$ 3 bilhões ao fim deste mês. Em maio do ano passado, última vez que fez venda líquida de swaps, o BC colocou um total de US$ 10 bilhões.

Drausio Giacomelli, chefe de pesquisa para mercados emergentes do Deutsche Bank em Nova York, pondera que "não seriam 25 pontos-base [referindo-se à queda não ocorrida na Selic] que mudariam" o viés de baixa da taxa de câmbio - mantido pela deterioração das expectativas para a atividade econômica e pela "antecipação" dos riscos políticos. Mas o profissional diz que o BC precisa "prestar atenção" na demanda das empresas por "hedge" cambial, já que, aparentemente, o setor corporativo está com o calendário de proteção "atrasado".

"Acho que essa demanda para o ′hedge′ vai continuar e duvido que o BC não eleve a oferta de proteção se necessário. [...] Mas é importante que isso seja feito antes que a depreciação do câmbio imponha ao país a combinação de aumento da inflação e piora da atividade", afirma. Para Giacomelli, dada a incerteza eleitoral, o dólar provavelmente terminará o ano ainda mais alto que agora.

Mas há também quem defenda que a desvalorização do real já está exagerada. Apenas em maio, a moeda perde 5,37% ante o dólar, terceiro pior desempenho entre as principais moedas. No ano, o dólar dispara 11,71%. "O Brasil não tem as vulnerabilidades externas de países como a Argentina, por exemplo. Por isso, mantemos nossa visão positiva para o câmbio", diz Alejandro Hardziej, analista de renda fixa da gestora Julius Baer. A casa mantém estimativa de que o dólar ficará em R$ 3,60 nos próximos três meses e ceda a R$ 3,50 em 12 meses.


Fonte: Valor - Finanças, por José de Castro , 18/05/2018