A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa Selic em 6,50% ao ano deve provocar ajustes tanto no segmento de juros quanto de dólar. Seria, contudo, mais uma adequação ao novo cenário, segundo economistas, simplesmente pelo fato de o Banco Central ter surpreendido
boa parte do mercado.
O primeiro impacto, na avaliação da economista-chefe da Rosenberg, Thais Zara, deverá ocorrer nos contratos mais curtos de juros futuros, que embutiam um novo corte da Selic. Esse movimento levaria a um aumento do diferencial de juros e, com isso, afirma, o real deve se valorizar, devolvendo um pouco da depreciação. "Mas isso seria só num prazo curtíssimo", pondera. "Não sei se a intenção do BC de sinalizar estabilidade por mais tempo vai surtir o efeito desejado, pois as eleições devem continuar afetando a curva de juros."
Os ajustes no mercado, tanto em termos de juros quanto de câmbio, serão marginais, diz a diretora de macroeconomia e política da Tendências, Alessandra Ribeiro, mesmo que a maior parte do mercado tenha apostado em um novo corte que não ocorreu. "Podemos ver um juro curto mais para cima, real um pouco mais apreciado e, para bolsa, a decisão é ligeiramente negativa."
Na visão do economista-chefe do Santander, Maurício Molon, o mercado tende a reagir positivamente ao avaliar a decisão do Copom como prudente e com potencial de reduzir a volatilidade. Segundo Molon, "o cenário não mudou, o que mudou foi o balanço de riscos, ou seja, a probabilidade de a situação externa piorar". Para o economista, a decisão de manter a Selic "demonstra um viés mais cauteloso diante da atual volatilidade dos ativos financeiros internacionais e da taxa de câmbio".
Ao surpreender o mercado, a tendência é haver um ajuste ao longo de toda a curva de juros, diz o economista da 4E, Bruno Lavieri. Ele avalia, no entanto, que a mudança de leitura do cenário externo, sinalizando a expectativa de mais depreciação cambial, é até mais importante do que a decisão em si. "O BC foi surpreendido por um choque de câmbio mais intenso do que seria confortável, e muito desse movimento está ocorrendo por conta do prêmio de risco em alta, porque o diferencial de juros está se estreitando por conta própria, e à medida que o prêmio de risco aumenta estimula uma depreciação adicional do real".
Na visão do estrategista-chefe da XP Investimentos, Celson Plácido, o Banco Central deixou evidente que está muito mais preocupada com os efeitos do cenário externo sobre o Brasil neste momento do que com um novo corte do juro básico, cujos reflexos seriam marginais para a economia. Isso, ortanto, deve levar a moeda americana a um ajuste negativo no pregão de hoje, enquanto os efeitos para a bolsa de valores devem ser neutros.
Para Plácido, a decisão "é racional e faz sentido" considerando os efeitos do dólar desde a última ata do Copom, em que os indicativos da autoridade apontavam para um novo corte de juros. Por mais que a economia doméstica ainda precise de estímulos, avalia, um corte de 0,25 ponto percentual da Selic teria um efeito muito pequeno.
Fonte: Valor - Finanças, por Sérgio Tauhata e Juliana Machado , 17/05/2018

