Dólar forte no mercado internacional, em alta de 17% ante o real desde a mínima do ano registrada em 25 de janeiro, títulos do Tesouro dos EUA remunerados acima de 3% para prazo de dez anos, petróleo colado a US$ 80 o barril do tipo Brent, conflitos brotando no Oriente Médio, estranhamento entre as duas "Coreias" pouco depois do comemorado aperto de mão entre os líderes dos dois países, viés protecionista de Donald Trump à flor da pele e a percepção - confirmada pela pesquisa CNT/MDA - de que parece cada dia mais distante a probabilidade de uma candidatura de centro vingar até as eleições presidenciais de outubro provocaram uma fissura no consenso de que a Selic seria reduzida ontem em mais 0,25 ponto percentual, para 6,25% ao ano.
Analistas, gestores e chefes de tesourarias bancárias estavam convencidos de que a Selic sofreria mais um corte e que o atual ciclo monetário seria encerrado com Selic 8,0 pontos percentuais menor que os 14,25% do início do processo, em outubro de 2016. O Banco Central (BC) em seus documentos mais importantes e o presidente Ilan Goldfajn, em declarações, sustentaram a sinalização de que a taxa básica poderia ceder um pouco mais. Pensar o contrário exigiu sangue-frio e certamente disposição para se opor à maioria.
A manutenção da taxa Selic em 6,50% anunciada pelo Copom, ontem no início da noite, foi surpreendente para 88% dos economistas consultados pelo Valor em pesquisa realizada na semana passada sobre projeções para a decisão que seria tomada nesta quarta-feira. De 42 instituições e consultorias entrevistadas, 37 contavam com a redução da Selic. Apenas cinco casas cravaram a estabilidade da taxa: Ativa Investimentos, Bank of America Merrill Lynch, Flag Asset Management, MacroSector Consultores e SM Managed Futures.
A A.C.Pastore & Associados não está nesse pelotão, mas deveria. O economista Affonso Celso Pastore fez precisas observações aos clientes na segunda-feira. Em relatório, o ex-presidente do BC explicou que o impacto inflacionário da depreciação do real e da alta do preço do petróleo é praticamente compensado pela ociosidade no setor produtivo e pela credibilidade do BC, que freiam o repasse da variação cambial para a inflação. Contudo, Pastore alertou para o risco de o relativo equilíbrio dessa equação ser comprometido, caso ocorra uma escalada do rendimento dos Treasuries e a corrida eleitoral no Brasil se mostre mais turbulenta que o esperado e coloque em cena a possibilidade de um governo populista ser instalado no país.
Pastore lembrou em seu relatório que, visto hoje, não ha risco quanto ao cumprimento da meta de inflação proveniente de uma redução residual da Selic, mas lembrou que muitos analistas clamavam por uma maior cautela por parte do BC em função de um possível recrudescimento dos riscos externos e internos.
"O fato de a taxa real de juro estar abaixo da neutra levará o BC - mais cedo ou mais tarde - a elevar a taxa Selic e este momento pode ser antecipado caso a pressão por aumento do juro nos EUA aumente ainda mais e/ou cresça a probabilidade de ser eleito um governo populista", alertou o economista. O ciclo de flexibilização monetária promovido por Ilan Goldfajn derrubou a Selic em 7,75 pontos. Não dá para botar defeito.
Fonte: Valor - Finanças, por Angela Bittencourt , 17/05/2018

